terça-feira, junho 16

ALEXANDRE HERCULANO

 «Um dia em que atravessava da Lisboa arabe para a Lisboa romana, da Alfama para o Castello, não sei como passei pelo sitio onde existiu o convento dos Bons Homens de Villar, ou Conegos do Evangelista, e parei a examiná-lo. O meu exame foi demorado a consciencioso, como se costuma dizer nos dous logares onde raro entra a consciencia — nas camaras legislativas e na imprensa politica. Todas as indagações que fiz para descubrir algum vestigio do edificio primitivo, cuja origem o leitor verá no primeiro capitulo desta historia, foram, porém, baldadas: os Loios (assim lhes chamava o povo) tinham transformado o antigo collegio do bispo D. Domingos Jardo em sumptuoso convento, de cuja grandeza se pode formar cabal idéa lançando os olhos para a estampa de Lisboa publicada na Viagem a Portugal de Philippe II, escripta pelo chronista Lavanha. Veio depois o terremoto e converteu tudo em ruinas. Nestas se aninhou, passado meio seculo, a Guarda Real de Policia, e, por morte desta, a sua suceessora e herdeira a Guarda Municipal.

Triste por ter perdido assim inutilmente o tempo e o trabalho, ia a seguir meu caminho, quando me lembrei de um velho manuscripto que lêra, e que falava miudamente de certo successo que Fernão Lopes transmitirá á posteridade na chronica de D. João I. Este successo terrivel, cujo desfecho apenas narra o chronista, e que vinha explicado n'aquella escriptura inedita com todas as suas causas e circumstancias, está ligado com a historia desse colegio do bispo de Lisbpa. Passou-me então pela mente fazer uma desfeita aos loios e ao terremoto, e dar de novo vida áquillo que hoje é só um nome. Procurei colligir as minhas recordações, e quando voltei a casa tinha pouco mais ou menos delineado e disposto os materiaes que constituem o amago e substancia da narração seguinte.

É o que resta a quem é pobre. — Não pôde tirar os monumentos das garras dos politicos; mas tem liberdade plena de reconstruir e povoar aquelles que já não existem.»


Alexandre Herculano,  'O Monge de Cister'.






Alexandre Herculano em Vale de Lobos, sentado numa das cestas da apanha de azeitona. A imagem, quase sempre reproduzida em gravura, é fotográfica, a partir do daguerreótipo original, aqui impresso em fototipia pela «Illustração Portugueza»). Existe em carte-de-visite e em vista estereoscópica «falsa».




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