sábado, janeiro 31

ALEXANDRE HERCULANO E O SEU AZEITE

Historiador, pensador liberal e figura central da cultura oitocentista portuguesa, Alexandre Herculano teve uma relação profunda e continuada com a agricultura, em particular com o cultivo da oliveira e a produção do azeite. Inicialmente em Lisboa, na horta da sua casa da Pampulha, e de forma mais sistemática nas propriedades que explorou a partir da década de 1850.

Em 1857, Herculano adquiriu a quinta de Vale de Lobos, com cerca de quarenta hectares, pagando por ela quatro contos de réis. O capital foi levantado na Livraria Bertrand, por conta de direitos de autor, o que confere à propriedade um estatuto simbólico: trata-se, literalmente, de uma quinta comprada com literatura. A instalação definitiva em Vale de Lobos, em 1863, marca o início da sua dedicação intensa à vinha e, sobretudo, ao olival.

Bulhão Pato descreve com detalhe essa atenção quase obsessiva às oliveiras:

“O olival era uma parte da lavoura em que se desvelava mais. No desponte das árvores às horas festivas, cortando toros velhos que rebentavam novamente, e no método da colheita punha todo o cuidado.”

Após a apanha, seguia-se a fabricação do azeite, conduzida com um rigor técnico pouco comum no Portugal da época. O processo era a frio, sem exposição ao sol, visando preservar a integridade do produto e alcançar a sua “genuinidade”. Técnicos italianos são a referência, e Herculano surge não apenas como produtor, mas como introdutor de práticas inovadoras. Segundo Basílio Teles, foi ele quem iniciou em Vale de Lobos os primeiros ensaios de um novo tipo de azeite, ao mesmo tempo que exercia uma forma de pedagogia agrícola, divulgando na região os métodos aprendidos em obras especializadas como “O Azeite”.

A sua produção ficou conhecida como ‘azeite de prato’, designação até então desconhecida em Portugal. O método é explicado na ‘Coreografia da Europa’ (22 de Julho de 1909), por Cândido Beirante, referente a ‘Herculano em Vale de Lobos’:

«Azeite de prato é o azeite que Alexandre Herculano produzia, o famigerado azeite alemão, devido à inteligência de quem, pela primeira vez em Portugal, se lembrou de seguir o processo italiano com azeites virgens, isto é, de ser submetido a nenhum modo de fogo acabado de colher.»

Vitorino Nemésio, em nota de rodapé às ‘Memórias’ (tomo I) de Bulhão Pato, insiste na mesma classificação, sublinhando repetidamente que o azeite produzido por Herculano deve ser entendido como produto de excelência, obtido por métodos modernos, que se distinguia claramente do azeite corrente então consumido. O próprio Bulhão Pato descreve o efeito desse azeite na alimentação quotidiana, afirmando que ‘o óptimo azeite temperava alimentos nobres e comuns, […] fazia melhores’.

O prestígio do Azeite Herculano não ficou circunscrito aos circuitos locais. A comercialização era feita em exclusivo pela firma Jerónimo Martins & Filhos, do Chiado, sinal inequívoco de reconhecimento comercial da sua qualidade. Reconhecimento esse que culminou num prémio obtido em 1867, na Exposição Universal de Paris, consagrando-o também em termos europeus.

O delicioso azeite de Alexandre Herculano faz, de certo modo, parte do pensamento prático do escritor e do seu ideal de modernização do país. Em Vale de Lobos, a escrita e a agricultura cruzavam-se de forma exemplar, produzindo não apenas ideias e textos fundamentais da historiografia portuguesa, mas também um produto que se tornou referência gastronómica no Portugal do século XIX.

A Quinta de Vale de Lobos, localiza-se ainda hoje no Ribatejo, na área de Santarém, entre a cidade e a Póvoa de Santarém, em paisagem agrícola suave, de olival e vinha, com acessos próximos da antiga estrada que liga Santarém ao sul (actual EN3), suficientemente isolada para garantir recolhimento e trabalho rural, mas sem romper com os circuitos comerciais da região. 

Na casa, prática e sem luxos, está a cama do escritor e muito daquilo que o rodeou em vida. O lagar permanece em atividade, mantendo produção de azeite com a marca Quinta Vale de Lobos, ‘estate produced and bottled’. Azeite virgem extra e não filtrado: continuidade agrícola do lugar e de toda uma era.

                    


                               Marina Tavares Dias 

Alexandre Herculano sentado 

numa cesta da apanha de azeitona

(cartão estereoscópico sem indicação

 de autor)





Daguerreótipo (retrato) de Alexandre Herculano, atribuído ao pintor-fotógrafo João Baptista Ribeiro, datado de c. 1853–1854 (Biblioteca Pública Municipal do Porto), e rótulo do azeite produzido pelo escritor




quinta-feira, janeiro 29

COIMBRA: AS PRIMEIRAS FOTOGRAFIAS

 O conhecimento que hoje temos sobre as primeiras fotografias realizadas em Coimbra deve-se, em grande medida, às investigações de Alexandre Ramires, que permitiram localizar e identificar um conjunto excepcional de daguerreótipos produzidos na cidade em meados do século XIX. 

As mais antigas fotografias conhecidas de Coimbra foram realizadas em Julho de 1842 e delas se conservam seis exemplares, executados pelo processo do daguerreótipo, anunciado publicamente em 1839 por Louis Jacques Mandé Daguerre, na sequência das experiências conduzidas em colaboração com Joseph Nicéphore Niépce.

O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a alcançar difusão internacional, baseava-se numa placa de cobre revestida por prata, sensibilizada à luz por vapor de iodo e revelada através de vapor de mercúrio. As imagens obtidas em Coimbra representam: uma vista sobre o rio Mondego e Santa Clara, quatro vistas do Paço das Escolas e uma tentativa particularmente ousada de registar o interior da Biblioteca Joanina, da qual apenas se distinguem alguns elementos arquitetónicos, como as cornucópias das colunas que sustentam as estantes.

Todos estes daguerreótipos se encontram preservados no antigo Gabinete de Física da Universidade de Coimbra, atualmente integrado no Museu da Ciência. Acompanhando as imagens, conserva-se igualmente o conjunto de aparelhos utilizados na sua realização: uma câmara escura própria para daguerreotipia, um dispositivo de revelação por vapores de mercúrio e uma caixa com doze placas sensíveis, todos fabricados em Paris pelo engenheiro Chevalier.

A encomenda destes instrumentos foi efectuada  a 20 de Junho de 1841 por Luís Ferreira Pimentel, então lente de Física Experimental da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra e director do Gabinete de Física. A importação foi feitaapelo editor e livreiro J. Orcel, que os forneceu em Julho de 1842, tratando previamente da desalfandegação em Lisboa e do complexo transporte até Coimbra, por via marítima até à Figueira da Foz, fluvial pelo Mondego e terrestre desde o Cais das Ameias até às instalações universitárias.

Permanece, contudo, uma questão em aberto: a autoria material destes primeiros daguerreótipos. Três nomes surgem como candidatos plausíveis, todos professores de Física Experimental na Faculdade de Filosofia. O primeiro é o próprio Luís Ferreira Pimentel, responsável pela encomenda dos aparelhos e cujo apelido poderá estar sugerido pela letra “P” (gravada no verso de algumas placas). O segundo é Antonino José Rodrigues Vidal, que viria a suceder a Pimentel na direção do Gabinete de Física em 1843 e que revelou, ao longo da sua carreira, um interesse continuado pela fotografia, expresso tanto em discursos públicos como na composição da sua biblioteca pessoal, rica em obras técnicas sobre daguerreotipia e química fotográfica. O terceiro candidato é António Sanches Goulão, também lente da Faculdade de Filosofia, cuja ligação à aquisição do daguerreótipo é explicitamente referida em fontes da época.

Face à impossibilidade de atribuição definitiva, tem sido proposta uma solução de natureza coletiva: admitir que a realização dos daguerreótipos tenha resultado de um trabalho conjunto, num momento em que os aparelhos acabavam de chegar a Coimbra e em que os três professores partilhavam interesses científicos, pedagógicos e experimentais no domínio da Física e da Óptica.

Esta hipótese remete para a importância decisiva da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, que, em 1772, instituiu a Faculdade de Filosofia como um dos pilares do novo ensino científico. Criada para substituir a antiga Faculdade das Artes, de matriz jesuítica, a nova Faculdade de Filosofia estruturava-se em três grandes domínios — Filosofia Racional, Moral e Natural — e tinha como princípio orientador o primado da observação e da experiência como vias de acesso ao conhecimento da natureza.

Neste contexto, a cadeira de Física Experimental, leccionada  no terceiro ano do curso filosófico, assumia um papel central. A Física não se limitava à contemplação teórica dos fenómenos, mas exigia demonstração prática, manipulação de instrumentos e experimentação sistemática. A luz, os espelhos, as lentes, a câmara escura, os telescópios, os microscópios e a lanterna mágica figuravam entre os objectos de estudo, criando terreno fértil para a recepção precoce da fotografia enquanto aplicação científica e técnica.

Para assegurar esse ensino experimental, foi criado o Gabinete de Física, dotado de máquinas, aparelhos e instrumentos adequados, sob a responsabilidade directa do lente de Física Experimental. A sua missão não era apenas demonstrar fenómenos conhecidos, mas formar estudantes capazes de operar os instrumentos com destreza e espírito investigativo, num ambiente académico.

É neste quadro institucional que se inscrevem as figuras de Luís Ferreira Pimentel, Antonino Vidal e António Sanches Goulão, cujas trajectórias académicas e científicas se cruzam com a história das primeiras imagens fotográficas de Coimbra. A elas, junta-se ainda o papel determinante dos livreiros e editores Orcel, responsáveis não só pela importação dos aparelhos fotográficos, mas também pela difusão de livros científicos, numa Coimbra oitocentista marcada por novas descobertas.

Assim, os primeiros daguerreótipos de Coimbra não são apenas documentos visuais excepcionais: constituem o testemunho material de um momento fundador, em que ciência, técnica, ensino universitário e circulação internacional de saberes convergiram para introduzir a fotografia em Portugal, no seio da Universidade e ao serviço da observação experimental do mundo.


Marina Tavares Dias 












quinta-feira, janeiro 8

José Pedro Passaporte

José Pedro Braga Passaporte, nascido a 18 de Agosto de 1877, foi fotógrafo profissional activo em Évora, onde manteve estúdio e exerceu com reconhecido prestígio. Em 1903, recebeu oficialmente do Rei D. Carlos o diploma de “Photographo da Casa Real”, distinção que lhe permitiu usar o título e as armas reais nos seus impressos e provas fotográficas, como atesta o exemplar aqui apresentado.


A sua actividade encontra-se documentada sobretudo entre c. 1900 e 1911, período em que produziu retratos de estúdio tecnicamente elaborados, recorrendo a cenários pintados, adereços simbólicos e composições de fantasia, em sintonia com práticas internacionais do retrato artístico. Após a nomeação régia, recebeu encomendas ligadas às deslocações da Família Real ao Alentejo e procedeu à modernização do seu atelier, consolidando a sua posição como principal fotógrafo eborense do período.


Foi pai do fotógrafo António Passaporte (1901–1983), o célebre editor dos postais fotográficos 'Loty'. António cresceu no ambiente do estúdio paterno em Évora, permanecendo ali até 1911, ano em que a família se exilou em Angola.








terça-feira, janeiro 6

LISBOA DE BENOLIEL

Fachada da Drogaria Moderna, número 202 da Rua das Amoreiras. No dealbar do século XX são inúmeros os estabelecimento que utilizam a palavra “moderno” para melhor cativar clientes. As crenças num futuro radioso, nas suas inovações técnicas, nos seus fabulosos inventos, vão revelar-se precárias como um cenário de papelão: será demasiado fácil lançá-las à fogueira das guerras.


Marina Tavares Dias em 'Lisboa Desaparecida'


(fotografia de Joshua Benoliel, c. 1908, 

comprada por  Marina Tavares Dias em 1989)




O NIASSA E A GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Após a queda de Badajoz, a 14 de Agosto de 1936, milhares de republicanos espanhóis procuraram refúgio em Portugal, sobretudo através da fro...