Antes de se tornar o escritor recluso, encerrado num quarto forrado de cortiça, Marcel Proust pertenceu ao mundo luminoso dos salões parisienses. E esse mundo deixou-lhe um rosto que não nasceu na literatura - nasceu num estúdio fotográfico.
Dinamarquês de origem, instalado em Paris desde a década de 1870, Otto Wegener tornou-se um dos retratistas mais elegantes da capital francesa. Não tinha a aura revolucionária de Nadar, nem a teatralidade mundana de Reutlinger. Tinha algo mais subtil: a arte de construir uma persona.
Quando Proust entra no atelier de Otto, nos primeiros anos da década de 1890, não é ainda o autor da 'Recherche'. É um jovem burguês refinado, frequentador de salões, atento à moda, ao gesto, à nuance social. A sessão que ali realiza é longa, variada, quase coreográfica.
Não se trata de fotografia isolada. É sequêncial. Wegener alterna os assentos. Primeiro, a cadeira Luís XVI de medalhão oval, espaldar baixo, pernas caneladas — discreta moldura neoclássica. Depois, a banquette com dois espaldares laterais, medalhões entalhados nos extremos, assento largo que permite a inclinação do corpo. Adereços nada neutros, dispositivos de encenação.
Proust experimenta posições. Sentado direito. De perfil. Reclinado. Mão apoiada no rosto. Corpo estendido com languidez quase decadentista. O fotógrafo dirige, ajusta, procura o ângulo em que o gesto deixa de ser rígido e passa a parecer natural.
Da multiplicidade nasce a síntese. Entre todas as variantes, uma imagem sobreviverá como ícone: o busto, ligeiramente inclinado, a mão apoiando a face, o olhar distante. Esse retrato — tantas vezes recortado do cartão original — parece espontâneo. Mas é o resultado de uma sessão meticulosamente construída.
O mobiliário participa da composição. O medalhão da cadeira cria equilíbrio geométrico. A linha horizontal do assento contrasta com a vertical do tronco. A mão triangula a imagem. Nada é acidental.
Wegener está num momento particular da sua carreira. A fase inicial, ainda herdeira do retrato burguês clássico, já passou. Agora domina a luz lateral suave, o fundo claro quase etéreo, o esbatimento inferior que dissolve o busto numa névoa luminosa. A fotografia deixa de ser mero documento familiar e transforma-se em afirmação social.
O jovem Proust surge como dândi, não como escritor. Como figura do “tout-Paris”, não como eremita da memória. É esta imagem pública que antecede a metamorfose literária. Curiosamente, as fotografias posteriores rareiam. A reclusão apaga o corpo do espaço social.
O fotógrafo de Proust é, assim, o fotógrafo de um momento preciso: o instante em que o escritor ainda pertence ao mundo que depois irá reconstruir na ficção. Wegener não fotografa o génio. Fotografa a promessa.
E talvez seja por isso que essas imagens continuam a fascinar. Nelas vemos não o autor consagrado, mas o jovem elegante que ainda não sabia que iria converter os salões, as cadeiras Luís XVI e os gestos estudados numa das maiores arquitecturas literárias do século XX.
O fotógrafo de Proust não lhe deu apenas um retrato. Deu-lhe uma máscara. E, como tantas vezes acontece, foi essa máscara que o tempo escolheu conservar.
Marina Tavares Dias
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