Vicente Lucas pertence a uma geração de futebolistas que, mais do que pela exibição, ficaram na memória pelo carácter. Nascido em Lourenço Marques, em 1935, chegou ao futebol português com a naturalidade de quem trazia o jogo dentro de si, mas sem alarde, sem pose, sem qualquer construção de figura. Era, antes de tudo, um homem simples. E foi essa simplicidade que moldou toda a sua carreira.
No Belenenses, onde se afirmou, rapidamente se percebeu que havia ali algo raro. Jogava como médio, com inteligência, leitura de jogo e uma elegância discreta que não precisava de gestos largos. Desarmava sem violência, antecipava sem espalhafato, passava com clareza. Era um futebol limpo, quase silencioso, mas de uma eficácia absoluta. Num tempo em que o contacto físico era duro e o jogo muitas vezes bruto, Vicente destacava-se precisamente por fazer o contrário: jogava limpo. E jogava bem.
Mas o que verdadeiramente o distinguia não era apenas a qualidade técnica — era a maneira de estar. Vicente Lucas era, acima de tudo, uma excelente pessoa. Quem com ele conviveu fala sempre da mesma coisa: a bondade, a serenidade, o trato fácil. Não gostava de protagonismo, não se alongava em declarações, não cultivava frases para memória futura. Respondia pouco, dizia o essencial, e sorria. Havia nele uma espécie de recato antigo, quase tímido, que contrastava com a dimensão que atingiu no futebol português.
Esse perfil ficou especialmente evidente quando lhe coube uma das tarefas mais difíceis que um jogador podia ter nos anos 60: marcar Pelé. Fê-lo várias vezes, sempre com a mesma sobriedade. Sem entradas duras, sem teatralidade, sem necessidade de afirmar autoridade. Limitava-se a jogar, e isso bastava. O próprio Pelé reconheceu nele o adversário mais correcto que o marcara. Não é um elogio menor: diz tudo sobre a forma como Vicente entendia o futebol e a vida.
Integrado na selecção nacional que disputou o Mundial de 1966, fez parte de uma das páginas mais célebres do futebol português. E, no entanto, nunca se colocou em primeiro plano. Mesmo quando, mais tarde, se discutiu o que teria sido diferente se tivesse jogado as meias-finais, nunca reclamou nada. Não era do seu feitio. Não dramatizava, não reivindicava, não se queixava.
A carreira, que parecia destinada a prolongar-se por muitos anos, foi abruptamente interrompida por um acidente em 1967, que lhe tirou a visão de um olho. Foi um golpe duro, injusto, daqueles que mudam uma vida de um dia para o outro. E, no entanto, também aqui Vicente manteve a mesma linha: aceitou, adaptou-se, seguiu em frente. Trabalhou como treinador, ensinou futebol, formou jovens. Sem ruído, como sempre.
Há figuras que ficam associadas a grandes momentos, a títulos, a números. Vicente Lucas fica associado a algo mais difícil de definir e, talvez por isso, mais duradouro: a ideia de rectidão. Num meio tantas vezes marcado pelo excesso, ele representava o equilíbrio. Num tempo de ídolos, era um exemplo.
Simples, directo, sem complicações e profundamente digno. Assim permanece.
Texto do livro 'História do Futebol', de Marina Tavares Dias (2001)
A primeira fotografia de Vicente,
acabado de chegar a Lisboa
Equipa do Belenenses
na década de 1950
(cromos dos célebres
'rebuçados da bola')
Lata de folha, comemorativa
da equipa do Belenenses