Mostrar mensagens com a etiqueta Coimbra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Coimbra. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, maio 8

A LOUÇA DE COIMBRA

Serviço de chá e café “Coração”, da Sociedade de Porcelanas, Lda. Foi fabricado em finais da década de 20 e nos primeiros anos de 1930. 

Produzido na fábrica da Arregaça, em Coimbra (a sede lisboeta estava na Rua dos Correeiros), este conjunto é dos exemplos mais expressivos da adaptação portuguesa da estética ‘art-déco’ ao universo doméstico. A própria designação comercial (“Formato Coração”, decoração “L.B. 4078 Vermelho”) revela a organização da fábrica: primeiro escolhia-se a forma das peças, depois o padrão decorativo aplicável ao conjunto. 

A decoração com pequenos corações repetidos sobre porcelana branca é surpreendentemente moderna para a época.

A Sociedade de Porcelanas de Coimbra foi fundada cerca de 1922, integrando o movimento de modernização industrial da cerâmica portuguesa no período entre guerras. Instalou-se na Arregaça, então zona periférica industrial de Coimbra, e tentavs competir com fábricas como a Vista Alegre e a Electro-Cerâmica do Candal. 

As marcas “Coimbra S.P. Portugal” tornaram-se conhecidas em vários mercados externos, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940. Nos anos seguintes, a empresa acabou progressivamente absorvida pela órbita da Vista Alegre, perdendo autonomia industrial ao longo do século XX.

Esta montagem fotográfica para catálogo mostra o lado menos conhecido do design ‘déco’ português: modernismo decorativo, humorístico e sentimental, muito distante da imagem tradicional da loiça portuguesa apenas floral e clássica. A composição gráfica da própria folha do catálogo (fundo preto, impressão a vermelho vivo e dourado discreto) aproxima-se dos catálogos franceses e alemães de artes decorativas da época. 

Hoje, folhas originais como esta são documentos raros da história do design industrial português. Testemunham uma década em que fábricas nacionais procuravam afirmar a linguagem estética internacional, sofisticada e moderna.





sábado, abril 4

ANTÓNIO DA CONCEIÇÃO MATTOS, FOTÓGRAFO DE COIMBRA

Entre os primeiros fotógrafos profissionais a exercer actividade em Coimbra, fora do âmbito universitário e de modo permanente, destaca-se António da Conceição Mattos, responsável por um Cabinet Photographico estabelecido na cidade em 1856. A sua existência está documentada por anúncios publicados na imprensa conimbricense, que permitem identificar com precisão o nome do fotógrafo, o local do estúdio e a natureza dos serviços prestados.

A primeira publicidade, de 1857, apresenta o cabeçalho "Cabinet Photographico — A. Conceição Mattos", indicando como referência urbana a Rua do Visconde de Luz, Coimbra. O texto especifica, porém, a localização exacta do estúdio na Rua da Calçada, n.º 71, 2.º andar, onde o fotógrafo realizava retratos a daguerreótipo, processo então ainda em uso, embora já em fase de declínio face às novas técnicas fotográficas sobre papel.

Segundo o anúncio, o estúdio funcionava desde as nove horas da manhã até às quatro da tarde, recomendando-se aos clientes o uso de fato escuro, indicação característica da prática daguerreotípica, sensível aos contrastes e à luminosidade. Para além da produção de retratos fotográficos, António da Conceição Mattos declarava igualmente incumbir-se de retratos a óleo e da reprodução de objectos de escultura, oferecendo os seus serviços 'por preços os mais diminutos'.

Este anúncio revela um estúdio de carácter permanente e comercial, com horário regular, público civil e oferta diversificada, situando António da Conceição Mattos entre os primeiros daguerreotipistas profissionais documentados em Coimbra. A datação em torno de 1857 coloca a sua actividade num momento de transição técnica, em que o daguerreótipo coexistia já com novos processos fotográficos, tornando o seu Cabinet Photographico um testemunho particularmente significativo da história inicial da fotografia na cidade.

Na exposição distrital de 1869, António da Conceição Mattos figura como proprietário da Photographia Luzitana, na Rua do Corpo de Deus, apresentando uma montagem com 25 retratos em carte-de-visite, formato que terá sido, igualmente, o primeiro a praticar e comercializar em Coimbra. O seu pioneirismo prolonga-se, pois, por mais de uma década, e através de vários métodos fotográficos.






 

sexta-feira, março 20

De Walldorf a Coimbra, passando por Nova Iorque

Há um lugar na Alemanha chamado Walldorf. Quer dizer, simplesmente, “aldeia na floresta”. Casas baixas, uma igreja, ruas quietas. Nada que faça prever grandeza. E, no entanto, foi dali que saiu um nome super-cosmopolita: Astor.

Nome que atravessou o Atlântico com a família emigrante de John Jacob Astor. Nome que cresceu em Nova Iorque e que se tornou outra coisa: o Waldorf-Astoria Hotel, onde o mundo elegante se encontrava sob focos de luz eléctrica, com criados fardados, gastronomia de luxo, salões intermináveisO meu avô Luiz esteve lá em 1919. Numa altura em que poucos portugueses podiam ir a Nova Iorque. Dormiu no hotel, e dele saiu para a cidade, para arranjar negócios e escrever sobre ela. Encantou-se, mas não com tudo. Havia qualquer coisa nos portugueses que mudavam de nome que o inquietava. ‘Americanizar’ o apelido era como se, ao atravessar o oceano, deixassem para trás a identidade de um país.

Anos depois, o hotel desapareceu. No seu lugar ergue-se o Empire State Building. O Waldorf Astoria, esse, foi reconstruído de raiz uns quarteirões mais acima.

Entretanto, o nome Astoria, dos Astors, passara a ter um significado de luxo. Chegou a cafés e hotéis deste lado do Atlântico. E chegou a Coimbra.

O Hotel Astoria abriu em 1926, ainda como eco do original nova-iorquino. Não uma cópia: é uma tradução. Tem outra escala, outra luz, outro rio. Mas guarda a mesma promessa de elegância, de mundo maior. Fico lá às vezes, num quarto de gaveto. Duas janelas, duas direcções, como se o espaço não fosse completamente fechado. À noite, há qualquer coisa de suspenso: Coimbra e o Mondego ficam mais suaves, e o tempo parece dobrar-se um pouco.

E então penso nisto: uma aldeia na floresta alemã,um hotel em Nova Iorque, um recorte de jornal com texto do avô, uma boneca comprada na loja do Waldorf-Astoria e trazida numa mala. E, agora, o meu quarto em Coimbra.

Tudo ligado por um nome que viajou muito. E que ficou no imaginário do mundo inteiro.


Marina Tavares Dias





quinta-feira, janeiro 29

COIMBRA: AS PRIMEIRAS FOTOGRAFIAS

 O conhecimento que hoje temos sobre as primeiras fotografias realizadas em Coimbra deve-se, em grande medida, às investigações de Alexandre Ramires, que permitiram localizar e identificar um conjunto excepcional de daguerreótipos produzidos na cidade em meados do século XIX. 

As mais antigas fotografias conhecidas de Coimbra foram realizadas em Julho de 1842 e delas se conservam seis exemplares, executados pelo processo do daguerreótipo, anunciado publicamente em 1839 por Louis Jacques Mandé Daguerre, na sequência das experiências conduzidas em colaboração com Joseph Nicéphore Niépce.

O daguerreótipo, primeiro processo fotográfico a alcançar difusão internacional, baseava-se numa placa de cobre revestida por prata, sensibilizada à luz por vapor de iodo e revelada através de vapor de mercúrio. As imagens obtidas em Coimbra representam: uma vista sobre o rio Mondego e Santa Clara, quatro vistas do Paço das Escolas e uma tentativa particularmente ousada de registar o interior da Biblioteca Joanina, da qual apenas se distinguem alguns elementos arquitetónicos, como as cornucópias das colunas que sustentam as estantes.

Todos estes daguerreótipos se encontram preservados no antigo Gabinete de Física da Universidade de Coimbra, atualmente integrado no Museu da Ciência. Acompanhando as imagens, conserva-se igualmente o conjunto de aparelhos utilizados na sua realização: uma câmara escura própria para daguerreotipia, um dispositivo de revelação por vapores de mercúrio e uma caixa com doze placas sensíveis, todos fabricados em Paris pelo engenheiro Chevalier.

A encomenda destes instrumentos foi efectuada  a 20 de Junho de 1841 por Luís Ferreira Pimentel, então lente de Física Experimental da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra e director do Gabinete de Física. A importação foi feitaapelo editor e livreiro J. Orcel, que os forneceu em Julho de 1842, tratando previamente da desalfandegação em Lisboa e do complexo transporte até Coimbra, por via marítima até à Figueira da Foz, fluvial pelo Mondego e terrestre desde o Cais das Ameias até às instalações universitárias.

Permanece, contudo, uma questão em aberto: a autoria material destes primeiros daguerreótipos. Três nomes surgem como candidatos plausíveis, todos professores de Física Experimental na Faculdade de Filosofia. O primeiro é o próprio Luís Ferreira Pimentel, responsável pela encomenda dos aparelhos e cujo apelido poderá estar sugerido pela letra “P” (gravada no verso de algumas placas). O segundo é Antonino José Rodrigues Vidal, que viria a suceder a Pimentel na direção do Gabinete de Física em 1843 e que revelou, ao longo da sua carreira, um interesse continuado pela fotografia, expresso tanto em discursos públicos como na composição da sua biblioteca pessoal, rica em obras técnicas sobre daguerreotipia e química fotográfica. O terceiro candidato é António Sanches Goulão, também lente da Faculdade de Filosofia, cuja ligação à aquisição do daguerreótipo é explicitamente referida em fontes da época.

Face à impossibilidade de atribuição definitiva, tem sido proposta uma solução de natureza coletiva: admitir que a realização dos daguerreótipos tenha resultado de um trabalho conjunto, num momento em que os aparelhos acabavam de chegar a Coimbra e em que os três professores partilhavam interesses científicos, pedagógicos e experimentais no domínio da Física e da Óptica.

Esta hipótese remete para a importância decisiva da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, que, em 1772, instituiu a Faculdade de Filosofia como um dos pilares do novo ensino científico. Criada para substituir a antiga Faculdade das Artes, de matriz jesuítica, a nova Faculdade de Filosofia estruturava-se em três grandes domínios — Filosofia Racional, Moral e Natural — e tinha como princípio orientador o primado da observação e da experiência como vias de acesso ao conhecimento da natureza.

Neste contexto, a cadeira de Física Experimental, leccionada  no terceiro ano do curso filosófico, assumia um papel central. A Física não se limitava à contemplação teórica dos fenómenos, mas exigia demonstração prática, manipulação de instrumentos e experimentação sistemática. A luz, os espelhos, as lentes, a câmara escura, os telescópios, os microscópios e a lanterna mágica figuravam entre os objectos de estudo, criando terreno fértil para a recepção precoce da fotografia enquanto aplicação científica e técnica.

Para assegurar esse ensino experimental, foi criado o Gabinete de Física, dotado de máquinas, aparelhos e instrumentos adequados, sob a responsabilidade directa do lente de Física Experimental. A sua missão não era apenas demonstrar fenómenos conhecidos, mas formar estudantes capazes de operar os instrumentos com destreza e espírito investigativo, num ambiente académico.

É neste quadro institucional que se inscrevem as figuras de Luís Ferreira Pimentel, Antonino Vidal e António Sanches Goulão, cujas trajectórias académicas e científicas se cruzam com a história das primeiras imagens fotográficas de Coimbra. A elas, junta-se ainda o papel determinante dos livreiros e editores Orcel, responsáveis não só pela importação dos aparelhos fotográficos, mas também pela difusão de livros científicos, numa Coimbra oitocentista marcada por novas descobertas.

Assim, os primeiros daguerreótipos de Coimbra não são apenas documentos visuais excepcionais: constituem o testemunho material de um momento fundador, em que ciência, técnica, ensino universitário e circulação internacional de saberes convergiram para introduzir a fotografia em Portugal, no seio da Universidade e ao serviço da observação experimental do mundo.


Marina Tavares Dias 












sábado, janeiro 3

COIMBRA

 Vendedora de laranjas, Coimbra, c. 1910.

Negativo em placa de vidro utilizado como material de ensino visual pelo New York State Education Department. A composição, provavelmente encenada para fins documentais, inscreve-se na tradição da fotografia etnográfica e pedagógica do início do século XX, destinada à representação de “tipos” e actividades quotidianas. A figura femininasé identificada apenas pela função económica, revelando simultaneamente o papel do trabalho ambulante feminino e o olhar das instituições educativas sobre a venda ambulante.




ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...