sábado, maio 30

ANTEPASSADOS DA FOTOGRAFIA

Câmara escura com secretária e meia-tenda. Gravura do 'Dictionnaire Universel de Mathématiques et de Physique', de Alexandre Saverien, Paris, 1754.

Esta gravura representa uma das formas mais elaboradas e conceptualmente maduras da câmara escura no século XVIII: um dispositivo óptico integrado numa secretária de trabalho, complementado por uma meia-tenda de tecido escuro destinada a isolar o observador da luz exterior.

A estrutura combina um corpo em forma de caixa, colocado sobre uma mesa, com um sistema óptico interno composto por lente e espelho inclinado. A imagem do exterior é projectada horizontalmente sobre uma superfície plana, onde pode ser observada com nitidez. A meia-tenda, feita de pano espesso, cria um espaço escurecido no qual o operador se senta parcialmente, concentrando o olhar e eliminando reflexos indesejados.

Este tipo de câmara escura era utilizado sobretudo para desenho, topografia, arquitectura, cartografia, etc. Funcionava como mediador entre o mundo exterior e o gesto gráfico, permitindo transpor com exactidão perspectivas, proporções e contornos. 

A gravura revela também uma dimensão simbólica importante. O mundo exterior entra literalmente no interior doméstico, projectado sobre uma mesa onde pode ser medido, traçado e corrigido. Esta 'domesticação' da visão antecipa princípios fundamentais da fotografia: a caixa escura, o controlo rigoroso da luz, a separação entre observador e objecto observado e a confiança numa imagem mediada por um aparelho.

Em 1754, porém, a fixação da imagem ainda depende da mão humana. Onde mais tarde surgirá o papel sensibilizado ou a placa fotográfica, encontramos aqui lápis, pena e papel. Esta câmara escura de secretária ocupa, assim, um lugar charneira na história da imagem: é simultaneamente instrumento científico, auxiliar artístico e antepassado directo da câmara fotográfica, testemunhando o momento em que o olhar moderno aprende a ver através de máquinas.




quinta-feira, maio 28

O Passeio Público em ESTEREOSCOPIA

Remate norte do Passeio Público lisboeta, com escadaria de acesso à Praça da Alegria de Baixo. (vista estereoscópica sem indicação de autor, c. 1870). A data habitualmente dada como nascimento da Avenida da Liberdade - 1879 - está errada, e refere-se à altura em que foi apresentado o projecto. Deve preferir-se 1886, pois só nessa altura foi a artéria oficialmente inaugurada. Os portões do Passeio Público ainda estavam de pé na altura em que foi construído o padrão dos Restauradores.

Esta vista estereoscópica montada em cartão simples e sem referências é mais antiga que a maioria das estereoscopias portuguesas correntes que hoje aparecem em leilões ou sítios de vendas. Provavelmente, é da década de 1860 ou de 1870. Está mais próxima das primeiras experiências lisboetas ligadas à circulação inicial da fotografia estereoscópica do que das grandes séries comerciais posteriores. Muitas das primeiras fotografias deste tipo sobreviveram sem marca porque ainda não havia uma identidade comercial estabilizada em Portugal para este mercado.






quarta-feira, maio 27

CASTRO DO CANTO, FOTÓGRAFO ANGRENSE

José Sebastião de Castro do Canto nasceu em Angra do Heroísmo a 20 de Janeiro de 1850 e pertenceu aos meios cultos e elegantes da sociedade terceirense do final do século XIX e início do XX. Funcionário público, chegou a ser secretário da Câmara Municipal de Angra, mas destacou-se principalmente como floricultor, aguarelista e ‘photographo amador’. Ligado ao Partido Progressista, foi eleito procurador à Junta Geral em 1905, exercendo funções de vice-presidente da comissão distrital. 

Apesar de nunca ter tido um grande atelier comercial conhecido, tornou-se figura muito respeitada nos círculos artísticos locais. Na fotografia, Castro do Canto foi sobretudo “amador de elite”, e muito elogiado pela crítica especializada. A revista ‘Echo Photographico’ dedicou-lhe uma página na sua Galeria de Amadores Contemporâneos, descrevendo-o como “photographo amador hors-ligne” e afirmando que as suas obras eram “admiradas e disputadas”. O nome dele ficou associado aos postais ilustrados editados pela Loja do Buraco (em Angra do Heroísmo), onde surge frequentemente em legendas estilo ‘Cliché do Sr. Castro do Canto’. 

Em 1910, Castro do Canto apresentou na montra da loja as primeiras experiências de ‘photographia a cores’ (autocrómio) conhecidas na Terceira, facto raro e muito precoce no contexto português. As suas imagens — paisagens do Monte Brasil, vistas urbanas ou festas do Espírito Santo — revelam um olhar simultaneamente documental e artístico, tornando-o uma das figuras mais interessantes da fotografia açoriana do século XX.






segunda-feira, maio 25

O ESCALABITANO CAFÉ SCALABIS

Na Rua Capelo & Ivens, em Santarém, no edifício onde mais tarde funcionaria o pronto-a-vestir Ornatus, existiu um dos estabelecimentos mais modernos e emblemáticos da cidade: o Café Estrela Scalabis. 

O empresário e jornalista Alfredo da Silva Leitão, correspondente d’’O Século’ em Santarém, inaugurou-o em 1922, como café, casa de chá e local de tertúlia elegante. O nome evoca a Santarém/Scalabis romana, anterior à inspiração cristã de Santa Iria.

A 12 de Março de 1939, Alfredo da Silva Leitão promoveu um ‘restauro’ modernista do espaço, cuja nova inauguração foi amplamente fotografada pelo ‘Século’. O projecto arquitectónico, assinado por Manuel Figueiredo, distinguia-se pela sua fachada de grandes superfícies envidraçadas, pelos interiores mais amplos e por uma grande escadaria de acesso ao salão de jogos.

A remodelação de 1939 transformou o [Estrela] Scalabis num verdadeiro símbolo da modernidade urbana em Santarém, com linhas arquitectónicas e mobiliário comparados aos do então renovado Teatro Rosa Damasceno. Os bilhares ganharam fama nacional, sendo frequentados por praticantes portugueses e estrangeiros da modalidade. 

Em 1942, o café foi vendido à Sociedade Comercial União Ribatejana, que organizou um concurso para escolher uma nova designação. O nome vencedor foi Café Portugal, adoptado após nova remodelação realizada em 1943 pelo arquitecto Filipe Nobre de Figueiredo. Permaneceu como um dos grandes pontos de encontro da cidade, encerrando finalmente nos anos 70, quando o espaço deu lugar à loja Ornatus. Observando bem, ainda lá encontramos vestígios da linguagem modernista de 1939.


Inauguração do Café Scalabis, em 1939




domingo, maio 24

Os Postais de António Novaes

António Novaes (1855–1940) foi uma das figuras fundamentais da fotografia portuguesa entre o final do século XIX e os primeiros anos do século XX, embora hoje permaneça relativamente esquecido face à celebridade posterior dos seus familiares Horácio e Mário Novaes. 

Filho de José Marcelino Henriques Novaes e de Fábia Emília de Novaes, era o mais velho de quatro irmãos ligados às artes. Já exercia a profissão de fotógrafo quando casou, em Lisboa, a 5 de Outubro de 1874, com apenas 19 anos. Nessa época morava na Rua do Arco do Marquês do Alegrete, n.º 92 (freguesia do Socorro). Em 1879, vivia na Rua Nova da Palma, n.º 69 (onde nasceu a filha Alice Novaes, baptizada no ano seguinte na Igreja do Socorro). No assento de nascimento da filha, António Novaes surge descrito como “retratista”. Em 1882 está registado como fotógrafo na Rua dos Canos, n.º 58, e em 1896 tinha atelier na Rua do Arco da Graça, n.º 30. Esta última morada está ligada à casa Photographia Contemporânea, oficina associada ao jornal ‘O Contemporâneo’. 

Em 1904, Novaes trabalhava na Calçada do Duque, n.º 25, morada de um dos grandes centros fotográficos da Lisboa da época e onde também exerceram actividade os irmãos mais novos (Eduardo e Júlio).

A carreira de António Novaes atingiu o auge entre 1902 e 1912. Afirmou-se então como fotojornalista e como retratista da corte, recebendo o título de Fotógrafo da Casa Real Portuguesa. Nesse período, colaborou na ‘Illustração Portugueza’, no ‘Occidente’, nos ‘Serões’, na ‘Semana Ilustrada’ e no ‘Tiro & Sport’. Para todas estas publicações fotografou as visitas régias, os casamentos elegantes, as corridas de automóveis, os desportos então emergentes e as cerimónias oficiais. São de sua autoria algumas das imagens mais emblemáticas da Lisboa monárquica do início do século XX. 

Os postais fotográficos das visitas do Presidente Loubet, de Eduardo VII, Afonso XIII, da rainha Alexandra ou dos duques da Cornualha trazem a sua assinatura no canto inferior direito e são muito procurados por coleccionadores. Em 1901, José Malhoa pintou e ofereceu-lhe um célebre retrato. 

Documentos camarários de 1903 e 1913 referem Novaes como ‘pintor retratista’, morando primeiro na Rua José Estêvão, n.º 129, e depois na Rua de Arroios, n.º 34. Isso sugere que António poderá ter conciliado fotografia e pintura nos últimos anos de actividade. Provavelmente já como fotógrafo de estúdio, especializado nos então muito divulgados ‘retratos a carvão’.




Visita a Lisboa 
do presidente francês 
Émile Loubet (1905)

 António Novaes 
retratado por José Malhoa (1901)



sexta-feira, maio 22

FRANCESCO ROCCHINI

Francesco Rocchini (1821–1893)  foi um dos mais fotógrafos activos na Lisboa no século XIX, desempenhando um papel central na consolidação da fotografia enquanto prática profissional, artística e comercial. Nascido em 1821, chegou a Portugal em 1847, num momento ainda precoce da história da fotografia, quando os processos e os modelos de estúdio se encontravam em plena definição. Fascinado pela possibilidade de fotografar salões e outros interiores, aprenderá a técnica de daguerreótipo com P. K. Corentin, especialista francês de passagem pela capital portuguesa.

A partir de 1853, Rocchini exerce como fotógrafo profissional, vindo a estabelecer um atelier de grande prestígio no Bairro Alto, com frente para a Rua de São Pedro de Alcântara e entrada pela Travessa da Água Flor. O seu estúdio distinguia-se pela oferta de retratos em todas as dimensões, desde miniaturas até ao tamanho natural, bem como pela execução de trabalhos em exteriores por encomenda,  sinal de uma actividade sólida e bem estruturada. 

O reconhecimento da sua obra ultrapassou o contexto português. Foi premiado internacionalmente, nomeadamente na Exposição Universal de Viena (1873), na Exposição Internacional de Filadélfia (1876), na Exposição Universal de Paris (1878),, na Exposição Portuguesa do Rio de Janeiro (1879) e na Exposição Internacional de Fotografia do Porto (1886), onde obteve medalha de ouro. Estes prémios colocam Rocchini ao nível dos grandes ateliers europeus do seu tempo e confirmam a importância do seu estúdio lisboeta nos circuitos internacionais da fotografia.

Morreu em 1893, deixando produção vasta, hoje maioritariamente dispersa por álbuns particulares e colecções pouco estudadas. A sua relativa obscuridade actual contrasta com o prestígio que teve em vida. Francesco Rocchini deve ser reconhecido como uma figura maior da fotografia portuguesa do século XIX e como um dos protagonistas da afirmação da fotografia em Lisboa enquanto arte e profissão.

Colaborador de inúmeras publicações, Rocchini poderá ter criado, sem o saber, algumas imagens depois utilizadas sobre postal ilustrado. Após a sua morte, em 1895, o estúdio continuará activo. Tal como acontece no caso de Cifka, muitos dos negativos e provas que realizou irão engrossar vários acervos e recolhas temáticas.



Programa de visita guiada ao antigo

atelier Rocchini, por Marina Tavares Dias 

e José Luís Madeira (2010)




Albumina original a partir 
de negativo de vidro de 
Francisco/Francesco Rocchini  
e posterior postal ilustrado em fototipia





Catálogo, cartão fotográfico e publicidade
 ao 'atelier' de Rocchini, 
antes e após a morte do fotógrafo 

quarta-feira, maio 20

O CAFÉ PARAÍSO DE TOMAR

O histórico Café Paraíso, na Corredoura de Tomar, celebra hoje mais um aniversário. Fundado em 1911, foi desde o início um dos principais pontos de encontro tomarenses, frequentado por comerciantes, estudantes, militares, viajantes e famílias que ali iam conversar, ler jornais ou simplesmente ver o movimento da rua.

A decoração é de 1946 e foi conduzida pelo arquitecto Francisco Granja. São dessa época muitos dos elementos que sobreviveram até aos nossos dias: espelhos venezianos, colunas, ventoinhas de tecto, vitrines, mobiliário e a caixa registadora antiga. O Paraíso conserva a atmosfera dos clássicos cafés portugueses, misturando ecos de art-déco tardio com o espírito dos antigos centros de convívio. Mais de um século depois da abertura, continua a ser dos espaços mais emblemáticos de Tomar e um dos cafés históricos mais bem preservados do país.


Café Paraíso em 1911

  Esplanada do Paraíso na década de 40

segunda-feira, maio 18

NAVEGAR NO NIASSA

O paquete Niassa, onde seguiram muitos militares portugueses rumo a Moçambique durante a Guerra Colonial, foi originalmente um navio civil de passageiros da Companhia Nacional de Navegação. Construído nos estaleiros Harland & Wolff, em Belfast (os mesmos de onde, em 1912, saíra o Titanic), entrou ao serviço em 1955, ligando Lisboa a Angola e Moçambique numa época em que as viagens marítimas ainda eram a grande ligação entre Portugal e o Ultramar. Tinha restaurantes, salões, convés de passeio e camarotes de várias classes, funcionando como verdadeiro transatlântico tropical do Estado Novo. 

Na fotografia, vê-se já a segunda vida do navio: a dos anos da guerra. centenas de soldados apinham-se nos conveses do Niassa durante a partida, enquanto famílias e amigos acenam do cais com lenços brancos. 

A partir de 1961, com o início da Guerra Colonial, o Niassa tornou-se um dos principais transportes de tropas para Angola, Guiné e Moçambique, realizando sucessivas viagens militares ao longo da década de 1960. Manteve durante anos muito do conforto e da atmosfera civil dos grandes paquetes portugueses, criando uma sensação quase irreal para os soldados: viajavam para a guerra em salões de navio com a elegância das rotas coloniais. 

Após o 25 de Abril, com o fim do império português em África, o Niassa participou no transporte de civis regressados das ex-colónias. Pouco depois, foi vendido ao estrangeiro, mudando várias vezes de nome até acabar desmantelado em Taiwan, em 1985. 

Para toda uma geração, o nome Niassa ficou ligado a esta imagem da despedida no cais: o último olhar para Portugal antes da travessia rumo à guerra.




sexta-feira, maio 15

O CAMANHO

A antiga Casa Camanho, um dos cafés mais característicos do velho Porto liberal e boémio, surgiu na então Praça de D. Pedro — actual Praça da Liberdade — na segunda metade do século XIX. O seu proprietário, o espanhol Manuel José Camanho, trabalhara inicialmente numa cervejaria de Frederico Clavel, na Rua do Bonjardim, negócio que adquiriu em 1868. Poucos anos depois transferiu-se para a Praça de D. Pedro, onde abriu o estabelecimento que tomou o seu nome e que já existia seguramente na década de 1870. O café foi profundamente remodelado e ampliado em 1880, passando então a apresentar um aspecto mais moderno e espaçoso, embora conservando traços típicos das antigas cervejarias oitocentistas, como o balcão sob a escadaria e as paredes cobertas de garrafas e espelhos. A Casa Camanho ficou conhecida menos pelo café do que pelas bebidas — vinho do Porto, genebra, whisky e outras especialidades — e tornou-se um dos pontos centrais da convivência masculina, jornalística e literária da cidade.

Ao longo das últimas décadas do século XIX e dos primeiros anos do século XX, a Casa Camanho integrou o grande circuito dos cafés históricos do Porto, juntamente com o Guichard, o Portuense ou o Central, formando o coração social e político da Praça de D. Pedro. Era frequentada por jornalistas, actores, estudantes, políticos e figuras da boémia elegante portuense, numa época em que os cafés funcionavam como verdadeiros clubes públicos de tertúlia e conspiração política.  A fotografia mostra a fachada da Casa Camanho integrada na frente comercial da praça, antes das profundas transformações urbanas do século XX. 




terça-feira, maio 12

UM CIGARRO PARA O SOLDADO

A fotografia mostra um jovem militar português em uniforme tropical, sorridente, cigarro na mão, pose cuidadosamente construída para transmitir confiança, juventude e camaradagem. 

Depois, o retrato surge reproduzido num anúncio da campanha “Um cigarro, o Amigo Certo”, promovida em 1961 pelo jornal ‘O Século’ em colaboração com o Movimento Nacional Feminino (criado por Cecília Supico Pinto logo após o início da Guerra Colonial em Angola). A campanha destinava-se a oferecer cigarros aos soldados mobilizados em África. O cigarro surgia como símbolo afectivo: pequeno conforto quotidiano, partilha entre camaradas, pausa de descanso e elo imaginário entre a metrópole e o ultramar. O slogan tinha a eficácia muito própria da publicidade da época, transformando o objecto banal num “amigo certo” do soldado.

Campanha e imagem impressionam agora pelo contraste histórico entretanto adquirido. Aquilo que era visto como patriotismo e solidariedade seria actualmente impensável como campanha pública: propaganda colonial associada à promoção indirecta do tabaco. Mas no início dos anos 60 o cigarro fazia parte do imaginário masculino ‘moderno’ e aparecia constantemente ligado ao cinema, à aventura, à vida militar e à ideia de resistência física. 

O Movimento Nacional Feminino explorou precisamente essa linguagem. A fotografia original, muito mais nítida que a reprodução em anúncio, revela uma construção cuidada: o soldado jovem, saudável e fotogénico, iluminado quase como estrela de cinema, figuante optimista de uma guerra distante. Era o oposto da dureza real do conflito que, neste ano de 61, começava a marcar para sempre uma geração de portugueses.








sábado, maio 9

O PALLADIUM PORTUENSE

 O Café Palladium abriu portas no Porto a 4 de Novembro de 1940, instalado no monumental edifício dos antigos Grandes Armazéns Nascimento, na esquina da Rua de Santa Catarina com a Rua de Passos Manuel. O imóvel fora projectado décadas antes pelo arquitecto Marques da Silva, num processo iniciado em 1914, mas só concluído em 1926. Em plena época dourada dos grandes cafés urbanos, o Palladium surgiu como símbolo de modernidade e luxo: decoração Art Déco desenhada por Mário de Abreu, grandes espelhos, mármores, iluminação indirecta, restaurante, salão de chá, salas de bilhar e snooker, espaços de jogo e até um cabaret no último piso com entrada própria. Tornou-se rapidamente um dos centros da vida nocturna portuense, frequentado por comerciantes, jornalistas, artistas e boémios, numa atmosfera cosmopolita inspirada nos cafés parisienses. O Diário de Lisboa destacava mesmo algumas modernidades raras para a época, como mesas com ligação telefónica e sistemas de altifalantes internos.

O Palladium encerrou definitivamente em 31 de Março de 1974, já numa altura em que o modelo clássico dos grandes cafés começava a desaparecer. O edifício foi depois transformado nas Galerias Palladium, mantendo o nome histórico e ganhando, na fachada, o célebre relógio animado com figuras como o São João, o Infante D. Henrique, Almeida Garrett e Camilo Castelo Branco. Durante décadas funcionaram ali várias lojas de referência, incluindo a Fnac e a C&A, que abandonaram o espaço recentemente. Em 2024 foi anunciada uma nova transformação do edifício: a instalação da primeira loja de rua da Primark em Portugal, ocupando cinco pisos, com abertura prevista para 2027. Apesar das mudanças sucessivas, o velho Palladium continua a marcar visualmente a Baixa do Porto, como memória sobrevivente dos grandes cafés elegantes do século XX.







sexta-feira, maio 8

A LOUÇA DE COIMBRA

Serviço de chá e café “Coração”, da Sociedade de Porcelanas, Lda. Foi fabricado em finais da década de 20 e nos primeiros anos de 1930. 

Produzido na fábrica da Arregaça, em Coimbra (a sede lisboeta estava na Rua dos Correeiros), este conjunto é dos exemplos mais expressivos da adaptação portuguesa da estética ‘art-déco’ ao universo doméstico. A própria designação comercial (“Formato Coração”, decoração “L.B. 4078 Vermelho”) revela a organização da fábrica: primeiro escolhia-se a forma das peças, depois o padrão decorativo aplicável ao conjunto. 

A decoração com pequenos corações repetidos sobre porcelana branca é surpreendentemente moderna para a época.

A Sociedade de Porcelanas de Coimbra foi fundada cerca de 1922, integrando o movimento de modernização industrial da cerâmica portuguesa no período entre guerras. Instalou-se na Arregaça, então zona periférica industrial de Coimbra, e tentavs competir com fábricas como a Vista Alegre e a Electro-Cerâmica do Candal. 

As marcas “Coimbra S.P. Portugal” tornaram-se conhecidas em vários mercados externos, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940. Nos anos seguintes, a empresa acabou progressivamente absorvida pela órbita da Vista Alegre, perdendo autonomia industrial ao longo do século XX.

Esta montagem fotográfica para catálogo mostra o lado menos conhecido do design ‘déco’ português: modernismo decorativo, humorístico e sentimental, muito distante da imagem tradicional da loiça portuguesa apenas floral e clássica. A composição gráfica da própria folha do catálogo (fundo preto, impressão a vermelho vivo e dourado discreto) aproxima-se dos catálogos franceses e alemães de artes decorativas da época. 

Hoje, folhas originais como esta são documentos raros da história do design industrial português. Testemunham uma década em que fábricas nacionais procuravam afirmar a linguagem estética internacional, sofisticada e moderna.





quarta-feira, maio 6

ERA UMA VEZ O PIERROT

Esta fotografia de Nadar fixa o Pierrot tal como o conhecemos em inúmeros desenhos e ilustrações posteriores. Foi praticamente inventado por Jean-Gaspard Deburau, em Paris, no Théâtre des Funambules. 

O traje branco amplo; o rosto empastado, sem expressão natural; o gesto suspenso; o corpo ligeiramente inclinado, como se a acção estivesse prestes a acontecer. O Pierrot não vinha do nada. Antes de Deburau, era herdeiro do Pedrolino da ‘commedia dell’arte’: personagem falante, secundária e cómica. Ele fez dela um ser silencioso, central, carregado de melancolia. 

O nosso Pierrot moderno é este símbolo de excessiva sensibilidade, ingénuo e lúcido, ridículo e trágico, preso entre o gesto e o silêncio. É o Pierrot de Deburau.








terça-feira, maio 5

CÂMARAS PIONEIRAS

Estas câmaras de madeira pertencem ao período fundador da fotografia e ilustram aquilo que pode ser justamente designado como a era de ouro das câmaras de caixa, que se estende desde os primeiros ensaios com controlo do tempo de exposição até ao início do século XX. A sua aparência austera — simples paralelepípedos de madeira com um orifício frontal ou uma objectiva rudimentar — esconde uma profunda revolução técnica e conceptual: foi com instrumentos deste tipo que a fotografia se tornou um processo reprodutível, controlável e transmissível.

Construídas em madeira maciça, material escolhido pela sua estabilidade e facilidade de trabalho, estas câmaras eram essencialmente compartimentos estanques à luz, concebidos para receber no seu interior papel ou vidro sensibilizado. O sistema óptico era elementar e o obturador, quando existia, consistia muitas vezes numa tampa, numa lâmina deslizante ou numa simples placa removível. Apesar dessa simplicidade, permitiam um domínio inédito da exposição e da formação da imagem, tornando possível a produção dos primeiros negativos fotográficos.

Entre os pioneiros que utilizaram e desenvolveram este tipo de câmara destaca-se William Henry Fox Talbot. Na década de 1840, Talbot concebeu pequenas câmaras de caixa hoje conhecidas como 'mousetrap cameras' ('ratoeiras'), assim apelidadas pela sua escala compacta e pelo modo quase instantâneo com que 'prendiam' a luz. Duas dessas câmaras, por ele projectadas e utilizadas, foram baptizadas Constance, um gesto revelador da relação íntima entre a experimentação científica e a vida privada nos primórdios da fotografia. Talbot chegou mesmo a apresentá-las em contextos familiares, demonstrando os seus resultados em retratos domésticos e estudos do quotidiano.

Foi com câmaras desta natureza que se consolidou o princípio fundamental da fotografia moderna: a existência de um negativo a partir do qual podem ser feitas múltiplas provas. Esse avanço distingue radicalmente estes aparelhos das técnicas anteriores, e marca a transição da fotografia enquanto curiosidade científica para prática cultural duradoura. Pesadas, silenciosas e aparentemente modestas, são, na realidade, o alicerce material de toda a história posterior da imagem fotográfica.







William Fox Talbot 


domingo, maio 3

MACAU, 1870

“Shang Wo, Photographer and Portrait Painter, No. 11, Rua Central, Macao”: legenda do cartão desta carte-de-visite produzida em Macau, provavelmente na década de 1870. 

O estúdio Shang Wo, de que subsistem poucos registos, anuncia-se como ‘fotógrafo e pintor de retratos’, sinal de prática híbrida típica dos primeiros ateliers: fotografia com retoque ou integrada em pintura de tradição local. 

Não é imagem original. Antes reproduz um retrato amplamente difundido na época, com exemplares idênticos e marcas de outros fotógrafos europeus (um deles é Byrne & Co.). Circulou internacionalmente e foi copiada em vários países.

O retratado é Li Hongzhang (1823–1901), figura central da China da dinastia Qing (século XIX). General, alto funcionário e diplomata, Li Hongzhang foi protagonista das tentativas de modernização conhecidas como ‘Self-Strengthening Movement' e negociador-chave nas relações com potências ocidentais. 

O retrato original é do fotógrafo Liang Shitai, activo em Tianjin, Xangai e Hong Kong nas décadas de 1870/80. A cópia de Macau testemunha difusão do mesmo negativo, pelos vistos célebre em circuitos comerciais da época. A fama de Li Hongzhi seria equivalente àquela que, na Europa, fazia vender fotografias da Rainha Vitória, de Napoleão III, de outras famílias reais ou de actores então célebres.





ALEXANDRE HERCULANO

 «Um dia em que atravessava da Lisboa arabe para a Lisboa romana, da Alfama para o Castello, não sei como passei pelo sitio onde existiu o c...