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segunda-feira, maio 25

O ESCALABITANO CAFÉ SCALABIS

Na Rua Capelo & Ivens, em Santarém, no edifício onde mais tarde funcionaria o pronto-a-vestir Ornatus, existiu um dos estabelecimentos mais modernos e emblemáticos da cidade: o Café Estrela Scalabis. 

O empresário e jornalista Alfredo da Silva Leitão, correspondente d’’O Século’ em Santarém, inaugurou-o em 1922, como café, casa de chá e local de tertúlia elegante. O nome evoca a Santarém/Scalabis romana, anterior à inspiração cristã de Santa Iria.

A 12 de Março de 1939, Alfredo da Silva Leitão promoveu um ‘restauro’ modernista do espaço, cuja nova inauguração foi amplamente fotografada pelo ‘Século’. O projecto arquitectónico, assinado por Manuel Figueiredo, distinguia-se pela sua fachada de grandes superfícies envidraçadas, pelos interiores mais amplos e por uma grande escadaria de acesso ao salão de jogos.

A remodelação de 1939 transformou o [Estrela] Scalabis num verdadeiro símbolo da modernidade urbana em Santarém, com linhas arquitectónicas e mobiliário comparados aos do então renovado Teatro Rosa Damasceno. Os bilhares ganharam fama nacional, sendo frequentados por praticantes portugueses e estrangeiros da modalidade. 

Em 1942, o café foi vendido à Sociedade Comercial União Ribatejana, que organizou um concurso para escolher uma nova designação. O nome vencedor foi Café Portugal, adoptado após nova remodelação realizada em 1943 pelo arquitecto Filipe Nobre de Figueiredo. Permaneceu como um dos grandes pontos de encontro da cidade, encerrando finalmente nos anos 70, quando o espaço deu lugar à loja Ornatus. Observando bem, ainda lá encontramos vestígios da linguagem modernista de 1939.


Inauguração do Café Scalabis, em 1939




sexta-feira, fevereiro 6

E QUANDO O TEJO CHEGAR AOS PÉS DE SANTA IRIA?

Poucas invocações religiosas terão gerado tradição tão rica, prolongada e múltipla como a de Santa Iria. Basta contar-lhe os topónimos: atravessa Portugal de norte a sul — de Santarém (Santa-IRem) à Póvoa de Sta. Iria, passando por Sta. Iria de Azóia, no centro tão simbólico do país na Cova da Iria, e reaparecendo no Atlântico, no Miradouro de Sta. Iria e no Porto de Sta. Iria, em São Miguel.


A celebrada Iria terá vivido no final do século VII (ou início do século VIII), num tempo ainda visigótico, anterior à invasão muçulmana da Península. Foi educada num mosteiro em Nabância, a actual Tomar, e era conhecida pela sua instrução, pela sua devoção e pela sua graciosidade.


O clérigo Remígio apaixonou-se por ela. Iria rejeitou-o. A rejeição transformou-a Remígio em vingança, espalhando o boato de que Iria estava grávida, acusação gravíssima para uma mulher consagrada a Deus. Para tornar a calúnia credível, ele recorreu a uma poção. Ao bebê-la, Iria adoeceu gravemente. O corpo inchado fez a mentira passar a assumida verdade.


Britaldo, homem igualmente apaixonado e que exercia a autoridade na Nabância, deu como verdadeira a acusação e precipitou-lhe a morte, assassinada à facada. O corpo foi lançado ao rio Nabão.


A partir desse momento, a história muda-se para o registo da lenda, e dela passa a mito. O corpo desce o rio até ao Zêzere e até ao Tejo. Chega finalmente à ribeira de Santarém, então ainda com a designação romana ‘Scalabis’. Nasce o culto de Santa Iria, e a cidade passa a ligar o seu nome à santa: ‘Santa-Rem’.


A Rainha Santa Isabel visitou Santarém para venerar o lugar onde o corpo de Santa Iria fora encontrado. Diz-se que as águas do rio se afastaram para lhe permitir aproximar-se. Mandou assinalar o local.


As cheias do Tejo e as sucessivas transformações da frente fluvial fizeram desaparecer esse sinal primitivo. Entre os séculos XVII e XVIII, o antigo marco foi substituído pelo padrão actual, com nicho e imagem da santa. Continua referência das cheias. Nele ficaram marcadas as grandes subidas da água e a inscrição em latim: ‘À divina Santa Iria, da Ordem de São Bento. Aqui jaz Iria: este túmulo sagrado guarda os seus ossos.'


O vale de Santarém conheceu cheias por vezes devastadoras: a grande tragédia de 1876, o temporal de 1941, as cheias de 1979 e de 1989. A Ribeira vive há séculos num equilíbrio delicado entre o rio, a lezíria e a habitação humana.


Diz-se que o mundo tem limite visível e silencioso: os pés da Santa Iria. A água pode subir, engolir campos, galgar caminhos, transformar a ribeira num espelho sem margens — mas pára ali.


Quando, como neste Inverno tão chuvoso, a corrente traz detritos, árvores e o medo antigo, olha-se para o padrão e mede-se o tempo pelo corpo da santa. Se a água tocar nos pés dela, o mar entrou pelo Tejo dentro, e Lisboa e o rio desfazem-se. 


Por isso a frase ancestral: ‘Quando a água chegar aos pés de Santa Iria, o mundo acaba nesse mesmo dia.’





Fotografias 
de Marina Tavares Dias 



Fototipia de Emílio Biel





Postais ilustrados da primeira
 e da terceira década do século XX 


ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...