Texto de Marina Tavares Dias, no ‘Diário de Lisboa’ (1988)
[…] José Nunes Cavaco, servente de pedreiro, esteve lá
em cima a ver a Lisboa pombalina e foi a última pessoa a descer dos andaimes da
estátua, em 1932. Uns dias antes, o fotógrafo Ferreira da Cunha subiu a custo,
ajudado pelos pedreiros, e foi bater uma chapa lá no alto, enquanto José Cavaco
«retocava» a cara do Marquês.
A fotografia ficou, e é provavelmente a única tirada à
estátua já no alto do pedestal e antes de terminadas as obras. Uma semana
depois José Cavaco foi comprar a revista a que essa foto deu a capa, no
quiosque da Avenida Fontes Pereira de Melo, entre o Hotel Avis e o Matadouro
Municipal. Recortou-a, colou-a num cartão. Passaram 56 anos.
Já o Sheraton cresceu e emparedou o belo parque do
Aviz, já o Forum Picoas substituiu o matadouro, já o quiosque desapareceu e a
revista ilustrada deixou de publicar-se, já o fotógrafo morreu e a chapa, sem
indicação de data, passou para a vala comum de um arquivo. Cinquenta e seis
anos depois, José Cavaco, ex-servente de pedreiro com uma reforma de 13 contos,
volta a ver a fotografia no livro «Lisboa Desaparecida» e quer falar comigo:
«Eu sou aquele do retrato, a fazer a ‘toilette’ ao Marquês!»
Foi o último a sair de dentro da estátua. «Sentava-me
numa cadeira lá dentro, espreitava para a avenida e passava pelas brasas.» José
Cavaco lembra-se de ver tapumes na rotunda da avenida, desde, pelo menos, os
primeiros tempos da República. A ideia da estátua é anterior ao século [XX].
Foi lançada no primeiro centenário da morte do Marquês de Pombal, em 1882. Foi
reforçada pela demolição do Passeio Público, em 1886. Só em 1914 é que a Câmara
abriu finalmente o concurso para escolha do monumento. Das catorze maquetas
apresentadas, quatro foram escolhidas, cabendo à primeira a adjudicação da
obra.
Ainda não estava resolvida a polémica eterna sobre o
carácter do homenageado e já se erguia outra polémica maior: os jornais
publicavam as críticas mais ferozes ao projecto aprovado, dos arquitectos Adães
Bermudes e António Couto e do escultor Francisco dos Santos. Em 1916, no jornal
«O Mundo», António Arroio desancava a obra: «O monumento é uma tal trapalhada
que não se sabe por que é que ela ainda não resumira em si mais pormenores
diversos, mais pobreza e misérias de ideias, mais incoerências de estilos do
que os que já encerra.»
A Câmara não apressou a «trapalhada». Havia demasiados
ventos desfavoráveis e demasiadas coisas a que acudir, na época. Quase vinte
anos depois de aprovado o projecto, os trabalhos estavam prontos para arrancar.
A estátua foi fundida no Porto e chegou aos bocados, em caixotes que iam sendo
espalhados pela base do pedestal.
«A primeira parte que veio foi a barriga do leão
ligada à perna do Marquês» — recorda José Cavaco. «Depois chegou a cobra que
está debaixo da pata do leão e que não se vê cá de baixo. Fui eu que pesei
algumas partes: 45 quilos a cabeça da cobra e 630 quilos a perna esquerda do
leão. Quando vieram os outros bocados, começámos a aparafusá-los uns aos
outros. Era tudo muito grande e pesado e tinha sido feito para um pedestal mais
alto, mas parece que houve um erro no cálculo. Estávamos a trabalhar na obra cinco
canteiros vindos do Porto e eu, que era servente e fazia o que ia aparecendo.»
Servente desde os 14 anos, José Cavaco trabalhou nas
obras de muitas casas das Avenidas Novas, ajudou à remodelação do Palácio das
Cortes (nome pelo qual foi conhecido, até há pouco tempo, a Assembleia da
República) e à construção do edifício do «Diário de Notícias». Nessa época, por
várias vezes, escapou à tangente duma queda do alto dos andaimes.
«Os meus colegas até viraram a cabeça quando eu
coloquei vigas nos andaimes do Marquês. Era quase meio-dia e eu tinha decidido
continuar só depois do almoço. Nessa altura, almoçávamos sempre numa taberna
que ficava na Joaquim António de Aguiar. Houve um dia em que bebi uma garrafa
de sete e meio e mais um copo de três. Fui depois lá para cima, e tinha de
atravessar a prancha com um palmo de largo e uns três metros de comprimento. E
eles todos começaram a olhar para a Rua Braamcamp… Passei com uma perna de cada
lado e olhava para baixo convencido de que chegava a meio e caía. Mas passei
sem cair. Noutra ocasião fiquei pendurado pelas mãos. Dei uma data de voltas e
lá voltei a pôr-me no andaime.» Medo, José Cavaco não tinha. «Ora — responde-me
hoje —, medo para quê?».
Os arquitectos e o escultor pouco apareciam. Talvez
porque tivessem passado por demasiadas injúrias […]. José Cavaco sentia o vento nos
cabelos, enquanto aparafusava a cara do Marquês com outra peça do «puzzle»: a
cabeleira. Antes disso, tinha ajudado a despejar dez toneladas de entulho que
ficaram depositadas nas pernas do homenageado e na barriga do leão. «Era tudo
despejado por uma tampa que o Marquês tem nas costas e por outra que o leão tem
no lombo. Essas portas foram depois aparafusadas por nós e ainda lá estão». Um ano após o início das obras em 1931, a estátua
estava pronta. José Cavaco foi directamente, e por 14 mil reis, para as obras
de São Bento fazer colunas e o frontão. A estátua só seria inaugurada em 1934,
no dia 13 de Maio. Escusado será dizer que Salazar não esteve presente nessa
homenagem ao «tirano» que expulsara os jesuítas do Reino.
«Nesse tempo, eu ia a pé aqui da Estrada da Luz para a
Avenida. Subia ao Alto dos Pinheiros direito a Telheiras e até ao Rego. Depois
atravessava para o Campo Pequeno e daí para o Saldanha até à Rotunda do
Marquês. Não chegava a uma hora de caminho, mesmo quando chovia. E eu chegava
sempre antes das oito da manhã. Se Lisboa era diferente? — Se era! Mas era tão
diferente que eu não sei explicar por palavras.»
Foi servente de pedreiro até 1953. Nesse ano deu
entrada no hospital do Rego para tratar os pulmões. Depois de um ano de
internamento, ainda exerceu outros ofícios: serralheiro, vaqueiro, caixeiro de
mercearia. Recusou um único trabalho, quando a Câmara o contratou para uma obra
e o levaram para o cemitério de Benfica: «Carreguei um caixão só uma vez. A
tampa ia a abanar e parecia-me que vinha vento de lá de dentro. Eu olhei para
trás e disse: ‘És o primeiro e o último!’ Despedi-me. Não me ralava andar
pendurado em andaimes, mas por nada deste mundo me faziam cavar sepulturas de
mortos!»
José Cavaco volta a segurar o cartão onde, há 56 anos,
colou a fotografia de Ferreira da Cunha: «Vê-se bem que sou eu, não acha?»


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