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sábado, janeiro 3

JOSÉ ARTUR LEITÃO BÁRCIA

José Artur Leitão Bárcia (11 de Abril de 1873 – 1 de Outubro de 1945) foi uma figura singular da cultura visual lisboeta da viragem do século XIX para o XX, reunindo numa só pessoa as funções de fotógrafo, colecionador, desenhador, restaurador e músico. Nascido em Lisboa em 1873, iniciou a sua atividade fotográfica ainda jovem, começando a comercializar fotografias a partir de 1895, ano em que também contraiu casamento.

Mais do que fotógrafo de estúdio convencional, Bárcia destacou-se pelo seu profundo interesse pelo património histórico e iconográfico, constituindo ao longo da vida um importante acervo de imagens, reproduções de gravuras, desenhos e documentos. O seu trabalho fotográfico revela uma atenção particular à arquitectura, à memória urbana e às transformações de Lisboa e vários outros locais.

Paralelamente, desenvolveu actividade editorial. Em 1915, colaborou na organização e indexação dos volumes da 'Lisboa Antiga' do olisipógrafo Júlio de Castilho, demonstrando rigor como investigador da iconografia lisboeta. Participou também em exposições de carácter histórico e biblio-iconográfico, nomeadamente na Exposição Antoniana de 1931, no Convento do Carmo.






Albuminas de Bárcia, da série 
de postais ilustrados 
fotográficos 'Lisboa Antiga'






José Bárcia, à direita, 
fotografado com 
o olisipógrafo Júlio de Castilho,
  no jardim da casa deste, no Lumiar








Os Postais Fotográficos de Bárcia

Em 1906, a nova Avenida D. Amélia (hoje Avenida Almirante Reis) estendia-se para norte, obrigando ao desaparecimento de parte do regueirão. A Rua dos Anjos foi cortada na zona exacta onde estava a velha igreja, muitos metros aquém da actual. O templo foi abaixo. Terraplanou-se a zona e, depois, cosmopolita e desempoeirado, passou-lhe por cima o tabuleiro da nova artéria citadina. Os velhos prédios da Rua dos Anjos vêem-se, na foto, em segundo plano. Ficaram lá. Ainda lá estão. Mas a vista a partir do mesmo local é hoje impossível. Onde vemos igreja e anexos, homens e carroça, corre agora asfalto. Zona alagadiça, os Anjos continuam a denunciar desníveis de terreno justificáveis pelo ribeiro que, em tempos anteriores à cidade, por aqui correu, entroncando no rio maior que definia o leito da actual avenida. 

  Onde as águas se cruzam - dizem -, o destino espreita. Assim, também nesta novíssima avenida de 1906, cujo real nome em breve passaria à História. D. Amélia no exílio, e eis novo topónimo, em 1910, homenageando o almirante Cândido dos Reis.

José Artur Leitão Bárcia esteve lá, de máquina fotográfica e tripé, antes de tudo isso. E é, talvez, o seu postal fotográfico mais sugestivo: "Lisboa Antiga", sim, mas retratada à beira de ser Lisboa nova. Entre um século e o outro. Entre o bairro popular e a larga avenida. Entre a Monarquia e a República.

(texto de Marina Tavares Dias em 'Os Melhores Postais de Lisboa'.




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