terça-feira, outubro 13

O NIASSA E A GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Após a queda de Badajoz, a 14 de Agosto de 1936, milhares de republicanos espanhóis procuraram refúgio em Portugal, sobretudo através da fronteira alentejana. Muitos foram acolhidos provisoriamente em Campo Maior, Elvas e Barrancos, enquanto outros ficaram internados em quartéis, fortalezas e instalações improvisadas sob vigilância da PVDE. Entre eles encontravam-se figuras importantes da República, como o governador civil de Badajoz, Miguel Granados Ruiz, e o coronel Ildefonso Puigdengolas, comandante da defesa da cidade. Depois de semanas de negociações entre Lisboa e Madrid, o Governo português decidiu repatriar os refugiados para território republicano. Em 10 de Outubro de 1936, 1 445 espanhóis embarcaram em Lisboa no paquete Niassa, com destino a Tarragona.

O navio chegou ao porto catalão na manhã de 13 de Outubro, encontrando uma cidade em plena efervescência revolucionária. Os refugiados foram recebidos por milícias comunistas e anarquistas, que os saudaram com vivas à República e à revolução. No entanto, a chegada esteve prestes a transformar-se num grave incidente diplomático. Espalhou-se o boato de que o Niassa transportava nacionalistas escondidos e centenas de milicianos cercaram o navio, exigindo uma revista. O delegado português e o comandante recusaram terminantemente permitir a entrada de homens armados a bordo, invocando a soberania do navio português. Durante largos minutos, enquanto automóveis blindados, metralhadoras e até uma peça de artilharia eram posicionados no porto, receou-se um confronto armado. A tensão acabou por dissipar-se e o desembarque realizou-se sem violência.

Poucos dias depois, a imprensa portuguesa relatava o episódio como um momento de grande risco, sublinhando a firmeza das autoridades nacionais perante as exigências das milícias catalãs. O próprio relatório confidencial da PVDE reconhecia que a situação estivera perto de escapar ao controlo. O comandante recusou igualmente embarcar cerca de duzentos prisioneiros nacionalistas que se encontravam detidos noutro navio do porto, decisão que o responsável da polícia política lamentou, convencido de que muitos acabariam por ser executados.

Para a maioria dos passageiros, a viagem no Niassa não representou o fim do exílio, mas apenas o regresso à guerra. Muitos homens foram imediatamente incorporados no Exército republicano. O caso mais conhecido é o do coronel Ildefonso Puigdengolas (o herói catalão que tentara defender Badajoz contra a Coluna da Morte de Yagüe) que, depois de escapar à queda de Badajoz e de encontrar refúgio em Portugal, voltou ao combate poucos dias após desembarcar em Tarragona, morrendo na frente no final de Outubro de 1936. O episódio do Niassa permanece um dos momentos mais singulares da participação portuguesa na Guerra Civil de Espanha: uma operação humanitária e diplomática que colocou Portugal no centro de um conflito internacional e que, por breves instantes, esteve à beira de desencadear um confronto armado no porto de Tarragona.


Marina Tavares Dias













domingo, outubro 11

TULE: UM REINO DE MEMÓRIAS

 O meu avô tinha a história do rei de Tule num livro ilustrado. Não consigo identificar a edição. Era muito pequena. Lembro-me do que salientava: a importância dos objectos que guardam memórias de que as outras pessoas nada sabem.

Durante muitos anos, julguei que o rei de Tule pertencia às antigas lendas recolhidas por Perrault ou pelos irmãos Grimm. Havia um rei, uma amada morta, uma taça de ouro e um castelo sobre o mar. Parecia história existente desde sempre. Muito mais tarde, descobri na Biblioteca Nacional um conto chamado «A Taça do Rei de Tule», de Fialho de Almeida, (incluída no livro O País das Uvas). «O rei de Tule era velho, e sobre velho, enfermiço e triste.» Aproximando-se a morte, repartia terras e riquezas pelos filhos. Guardava, porém, a taça oferecida pela mulher amada. Depois de beber pela última vez, lançava-a ao mar. Fialho explica o gesto: «por que ninguém mais, bebendo por ela, viesse a conhecer os segredos daquele amor».

Apesar de pequena, detinha-me no valor daquela lembrança. Quem recebesse a taça poderia apreciar o ouro e o trabalho dos relevos. Nada saberia, porém, do que ela significava para o rei. Há objectos cuja história desaparece quando morre a última pessoa capaz de a contar.

Anthero de Quental deu à narrativa o começo familiar dos contos: «Era uma vez um bom rei / Em Thule — essa ilha distante». Na sua versão, datada de 1871, o soberano da terra sonhada abandona, à beira da morte, palácios, vilas e cidades. Tudo deixa sem saudades. Custa-lhe separar-se do copo de ouro. Reúne os cavaleiros para um último festim, bebe e atira a taça às ondas. Fim das memórias com o fim da sua vida.

Anthero traduzia Goethe. Composta em 1774 e publicada pela primeira vez em 1782, a balada Der König in Thule integra o Fausto, onde é cantada por Margarida. Goethe escreve-a ao modo das canções tradicionais. Este conto, adaptado em numerosas versões, tornou-se tema musical e história contada às crianças. Thule, porém, é um reino muito mais antigo. As primeiras notícias dessa terra sonhada são atribuídas a Píteas de Massália, o navegador grego que explorou o norte da Europa no século IV antes de Cristo. O livro original perdeu-se. Restam notícias transmitidas por outros autores, entre eles Estrabão, que situa a Thule de Píteas «a seis dias de navegação para norte da Britânia, perto do mar gelado».

Imagina-se bem a terra irreal, de noites muito curtas e populações sem frio; rodeada de um mar estranho e denso, difícil de atravessar. Afigura-se-me que possa descrever a Islândia e a Noruega. Mas é, sobretudo, local de mistério. Goethe encontrou no nome de Thule a distância temporal necessária a esse mistério. Quando o meu avô contava a história, compreendi que a localização geográfica era «o menos». A vida confirma a sua lição: o que importa é aquilo que a memória deixa connosco.





Pierre Jean Van der Ouderaa
De Koning van Thule

domingo, outubro 4

1966, NORTE DE MOÇAMBIQUE

A fotografia de 1966 mostra militares portugueses junto do monumento de pedra que, no extremo norte de Moçambique, perpetuava a homenagem aos soldados ali mortos durante a Primeira Grande Guerra. Perto do rio Rovuma e da fronteira com a Tanzânia, este marco encimado por uma cruz e parcialmente coberto por líquenes era parte da antiga presença militar portuguesa naquela região remota de Cabo Delgado. 

À volta dele, os soldados posam de forma descontraída, empoleirados no pedestal, segurando armas automáticas, em composição quase improvisada de fotografia de campanha. O mais curioso é o ambiente aparentemente calmo. Não há combate, tensão visível ou dramatização heróica. A imagem transmite a estranha normalidade dos primeiros anos da Guerra Colonial no norte de Moçambique, quando muitas zonas do Rovuma viviam ainda numa espécie de coexistência ambígua entre guerrilha, presença militar portuguesa e populações locais habituadas a circular dos dois lados da fronteira.

Segundo testemunho do soldado que guardou esta imagem, a região parecia muitas vezes parada numa “drôle de guerre" suspensa e quase irreal. As populações locais abasteciam tanto portugueses como guerrilheiros e, do outro lado do rio, os chamados “turras” podiam ser vistos a acenar ou a observar as patrulhas portuguesas à distância. A fronteira era mais humana que política: famílias, línguas e redes comerciais atravessavam o rio muito antes das divisões coloniais entre portugueses, alemães e britânicos. 

Vista hoje, esta fotografia ganha uma dimensão histórica impressionante. Aquele norte de Moçambique aparentemente imóvel viria depois a conhecer décadas sucessivas de violência: guerra colonial, independência, guerra civil e, já no século XXI, a invasão islamista de Cabo Delgado. No século XXI, o Rovuma é uma das fronteiras mais instáveis da África Oriental.








domingo, setembro 27

O DANDY







Este programa da récita de finalistas do Colégio Infante de Sagres, em Mouriscas, anuncia para a noite de 29 de Janeiro de 1967 a actuação dos The Dandy. Na viola-ritmo estava Jorge Palma, então com 16 anos. Tocavam com ele Fernando Velez, no baixo, J. Manuel Santos, na viola-solo, e José Carlos, na bateria. O nome do Jorge surge também nas «Variedades».

O pequeno panfleto foi-me dado por um colega desses anos 60, também aluno do colégio e participante na récita. As suas recordações pessoais mostraram-me um Jorge anterior aos discos: sabia todas as canções de Bob Dylan e sentava-se ao piano do colégio para tocar. Ninguém o contrariava. Num estabelecimento dirigido com austeridade pelo reitor Santana Maia, essa liberdade chamou a atenção dos outros alunos, que a relacionavam com o facto de já se saber que Jorge tinha formação musical.

Os colegas desse tempo recordavam as fugas ocasionais de Jorge e a maneira como estudava, deixando a preparação para a véspera e prolongando vigílias pela noite dentro. Pequenos episódios da vida escolar que tive oportunidade de confirmar com ele em 1980, e que ajudaram a ver o rapaz por detrás do nome impresso neste programa. Em Janeiro de 1967, Jorge Palma já tocava com uma banda, procurava o piano sempre que podia e tinha colegas que reparavam nele. É esse Jorge, conhecido de perto, que o seu ex-colega ainda recordava e recorda.

Fast-forward 13 anos. Em 1980, ainda ninguém levava o Jorge Palma muito a sério. Era essa a impressão que eu tinha sempre que tentava falar dele, sempre que lhe tocava os discos. «Estás a ouvir um gajo que canta ‘não é o fim da picada’?». Ele já tinha gravado, compunha, cantava, tocava piano e guitarra, tinha estado em festivais ao vivo, mas continuava a ser visto como aquela figura meio errante, o rapaz que andava por aí com as canções no bolso. O facto de tocar no metro não ajudava a convencer quem decidia o que merecesse destaque num jornal diário.

Conheci-o através do Luís. Aos 18 anos, eu queria entrevistá-lo porque me parecia evidente que havia ali histórias para contar. O Jorge disse-me então que nunca lhe tinham feito uma entrevista tão longa. Foi publicada em Janeiro de 1980, no diário matutino Portugal Hoje. Conseguir que aquela conversa saísse não foi simples. Pessoalmente, ainda procurava o meu lugar na Imprensa. Ele ainda procurava quem o escutasse sem condescendência. Nenhum de nós tinha «taco».

Havia, é claro, quem já lhe conhecesse canções e gostasse delas. Quando digo que ninguém o levava a sério, falo do ambiente entre as elites bem-pensantes: a facilidade com que se desvalorizava alguém que não correspondesse à ideia de artista respeitável. O Jorge trazia para as entrevistas a mesma franqueza com que tocava na rua. Falou imenso das cantigas nos corredores do metro, das viagens tantas vezes quase forçadas, do dinheiro que faltava, do que lhe apetecia fazer.

Era livre. Ainda? Sempre? - Não queria saber. Talvez essa liberdade parecesse excessiva aos mais velhos. Nunca achei.












terça-feira, setembro 22

JORGE PALMA EM 1980

 

Entrevistei Jorge Palma para o suplemento Som 80 do diário Portugal Hoje. A entrevista foi publicada a 5 de Julho de 1980, quando ele acabara de fazer 30 anos. Eu estava recém-saída da adolescência. Nenhum de nós tinha dinheiro. Ambos tínhamos opinião própria. Lutei muito para que o director desse destaque à prosa. Foi a primeira entrevista extensa da carreira do Jorge e ocupou duas páginas, com chamada na primeira página do jornal — circunstância que o deixou particularmente feliz. Falávamos quotidianamente no Rossio, onde tocava na rua. Mais tarde (ele estava num quarto na pensão Ninho das Águias) discutimos música, independência, escolhas pessoais, desigualdade e liberdade. Quarenta e seis anos depois, recupero isto como foi publicado, conservando linguagem e opiniões daquele momento. Vale o que vale, quando poucos o conheciam.











JORGE PALMA A «SOM 80»

O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais

Marina Dias

São quase seis da tarde. As pessoas passam depressa na direcção do Rossio, indiferentes ao músico franzino que afina as cordas da viola, distraidamente encostado ao muro. Com o casaco e a mala pelo chão, ele arranca os primeiros acordes da música que hoje, como frequentemente, traz consigo pela rua. Aos poucos, o gelo vai derretendo. Há gente que pára e fica a ouvir. Um espectáculo simples está a ser feito ali. Nasce o burburinho entre os transeuntes e a conversa no meio dos espectadores:

— É ele.
— Não sei, não tenho segundo canal.
— É mais novo.
— Conheço esta música.

Aparentemente distanciado do alvo das atenções, o guitarrista continua, canção após canção, sem um baixar na voz, sem um tremer de mãos. Raras vezes olha à sua volta. Quando o faz, o seu sorriso é quente e muito rápido. Algumas mulheres de meia idade aproximam-se mesmo dele e resolvem a questão nascida entre si:

— Você não é o Jorge Palma?

O músico ri e acena afirmativamente. Mas logo volta à canção:

— O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais.

Jorge Palma — compositor, poeta e cantor, vindo de uma geração de gente que, em meados da década de sessenta, acordava para um novo estilo de vivência e uma outra maneira de encarar o mundo. Bastante firme nas suas convicções e no desejo de criar uma realidade diferente para a música portuguesa, nunca trocou definitivamente o contacto diário e directo com o público, nas ruas, pela calma dos estúdios de gravação. Transposto para os seus poemas, o abandono exercido pela comunidade sobre o indivíduo menos integrado cria um estilo próprio de canções. E a música, oscilante na fronteira do «bluegrass» com um certo tipo de «folk» familiar a todos os compositores de intervenção, conta com arranjos escolhidos dentro do que é (ainda) uma novidade por estes lados da Europa.

Como Woody Guthrie ou o próprio Dylan, Jorge Palma recolheu da sua experiência como músico muito do que agora nos conta em cada disco. Essa experiência constitui um contributo a que ele já chamou «Qualquer coisa para a música»: uma oferta importante tendo em vista o «rock» que se faz neste país. Especialmente se levarmos em conta que (também) por cá muitos compositores, ao contrário de oferecerem algo à cultura musical, têm tirado dela a sua vida e o seu sustento, nem sempre em prol da qualidade.

— Passei a minha infância praticamente fechado em casa. Comecei a aprender clássico aos quatro anos. Só me voltei para o «rock» quando, por volta dos 14, comecei a ouvir os Beatles e os Stones e vi que era um estilo mais de acordo com aquilo que eu procurava. Estive em vários grupos ainda no tempo do liceu, mas nunca gravámos. Acho que o início da minha carreira foi realmente com o Sindicato.

O Sindicato, um agrupamento de «jazz-rock» nascido nos finais dos anos sessenta, contava com a participação de músicos como Rão Kyao, Vítor Mamede, Rui Cardoso e Ricardo Levi.

— Nessa altura, queríamos um som estilo Blood, Sweat & Tears e Chicago. Precisávamos de um trompete e de um trombone, por isso fomos buscar músicos à Banda da Aviação e à Banda da Marinha. Embora deslocados à partida, eles davam o seu melhor... Gravámos dois instrumentais, num LP com êxitos do Paulo de Carvalho, para a Philips. Foi a primeira experiência de estúdio que tivemos juntos. Depois disso, houve um «single» chamado «Sindi-Blue Suede Shoes-Cato», cujo lado B foi escrito por mim, pelo Ricardo e pelo Vítor. Estivemos no Festival de Vilar de Mouros e depois separámo-nos. Éramos muita gente e havia pouco dinheiro.

Após o primeiro «single» a solo, «Nine Billion Names of God», e as primeiras experiências para gravar em português, Jorge Palma partiu como exilado político para a Dinamarca, recusando assim a mobilização para o serviço militar. Voltou a Portugal em Agosto de 1974 e gravou o álbum «Viagem na Palma da Mão». Em 1977 viria a publicar outro LP, a que deu o título genérico de «Té Já». Depois disso, viajou pelo resto da Europa, onde escreveu o material do seu disco mais recente, «Qualquer Coisa Pá Música», editado este ano.

«Cada um dos meus discos marca uma fase»

— Desde que voltaste a Portugal, no fim do ano passado, tens feito apresentações ao vivo (com bilhetes pagos)?

— Sim. Em bares, como o «Aguarela», e na Faculdade de Letras. Também fiz o suporte dos Pirates, no Pavilhão dos Belenenses. Geralmente, o Bando está comigo, mas já tenho tocado sozinho...

— Como surgiu a ideia da participação de vários músicos conhecidos no teu último álbum?

— Encontrei o Sérgio Godinho em Paris, por casualidade, e foi ele uma das pessoas que fez mais força para que eu voltasse para cá. A canção que canta comigo, «Na Terra dos Sonhos», tem algumas influências da própria música dele. Por isso, achei boa ideia pedir-lhe para participar. Os Sheiks tinham-me convidado para entrar no programa deles para a televisão, em Outubro; e foi nessa altura que surgiu a ideia da colaboração. Quanto aos outros, o João Heitor, o Rui Cardoso, o Zé Nabo, o Xico Zé, etc., são pessoas com quem sempre tenho mantido contacto.

— O teu último disco marca uma nova fase?

— Todos os meus discos marcam uma fase. O último é muito diferente do «Té Já» e o «Té Já» é muito diferente do «Viagem na Palma da Mão». A nível de letras, a nível de música e, até, de vivência. Na «Viagem na Palma da Mão», por exemplo, os arranjos são mais complicados, mas, por outro lado, fui eu quem tocou tudo, e estava a tocar viola um pouco mal nessa altura.

— Pensas voltar a gravar em inglês?

— Quando fiz o material do «Qualquer Coisa Pá Música», também escrevi algumas canções em inglês. Tenho temas para um LP em inglês, mas não faz muito sentido editá-lo em Portugal. Talvez o grave no estrangeiro ou inclua algumas dessas canções no meu próximo álbum em português.

— O que pensas do facto de o actual «rock» português ainda ter muitas influências do «rock» dos anos 60?

— É natural que seja mais comercial, pois já foi assimilado. O público tradicional talvez esteja mais aberto para esse tipo de música do que, por exemplo, para a «new-wave». A «new-wave» foi especificamente de encontro a uma camada mais jovem.

O «rock» parece individualista

— Hoje, o «rock» parece individualista. Na música e na poesia. Parece distanciado do tempo dos «objectivos universais». Será que os músicos diferentes se deixaram comprar?

— Acho que isso tem mais a ver com os próprios movimentos colectivos e com o sucesso que tiveram (quando há união, há muito mais força, é evidente). Toda aquela energia e alegria que saltavam de todos os trabalhos que eles realizavam (discos, filmes, concertos, passeios...), eram tão fortes, tão boas, que todos compravam e apoiavam, sem reservas. Então, alguns desses artistas tornaram-se muito famosos e ricos. Talvez começassem a considerar-se vedetas e é aí que começa o mal.

— É por isso que continuas a tocar na rua?

— Bem, o eu tocar na rua tem muitas razões. Gosto de manter um contacto directo com as pessoas. Outra das razões é que isso me proporciona uma liberdade de movimentos que não posso ter de nenhuma outra forma — toco onde quero e o que quero. O único problema que existe é a «ordem estabelecida».

— Mas um músico que toca na rua é tratado como um vulgar vendedor?

— Isso depende muito da maneira como te apresentas. Se o músico estiver com a consciência perfeitamente tranquila, com os olhos abertos e límpidos, a olhar as pessoas de frente e a fazer uma festa na rua, normalmente há tendência para haver tolerância pela parte da autoridade. Eu tenho encontrado essa tolerância em alturas e lugares em que outras pessoas, com o mesmo tipo de actividade, são aborrecidas pela polícia. Isso aconteceu-me muito em Paris e também na Suíça. Por cá já têm implicado comigo mas isso deriva até da maneira como os músicos portugueses acham desprestigiante tocar na rua.

— Não é assim no estrangeiro?

— Geralmente não. Em Paris cheguei a encontrar gente que gravava discos e tocava na rua. Inclusivamente, encontrei bons executantes clássicos a tocarem no metropolitano. Um deles era suficientemente bom para ser o primeiro violino da Sinfónica. Estudava no Conservatório e já tocava numa orquestra. Treinava sempre no «metro».

— Não se justificaria mais que isso acontecesse em Lisboa, visto que Lisboa é uma cidade onde existem menos clubes e iniciativas para mostrar ao público o que os artistas por cá estão a fazer?

— Eu acho que isso tem muito a ver com o facto dos próprios artistas assumirem as suas decisões e procurarem as próprias chances, aproveitando-as sempre que surjam. E tem também muito a ver com a mentalidade, que é produto da educação. As pessoas por cá raramente tomam decisões; raramente assumem responsabilidades. Desde crianças, são mantidas num aparte em que não decidem nada. Quando isso acontece, a criança torna-se adolescente, posteriormente adulta (com sérias reservas), e foram sempre os mais velhos a decidir por ela. De repente, descobrem-se com 25, 30 anos e seguem as vias tradicionais: casam sem conhecer o amor, vão trabalhar em algo que não as realiza e ficam aterrorizadas perante a ideia de tomar uma decisão em relação à sua vida. Acontece a todos os níveis, e a nível musical também.

«Escrevo sobre o que sinto e procuro o meu caminho»

— As pessoas têm medo de tomar a decisão de tocar na rua?

— Olha, eu toco na rua. Não tenho problema nenhum, não tenho vergonha nenhuma e acho que é uma coisa muito boa. Quando houver mais quatro ou cinco pessoas a fazer o mesmo que eu, daqui a algum tempo, muita gente é capaz de seguir o exemplo. No fundo, quem tomou a decisão fui eu e eles vêm na onda. Tocar na rua é possível, é giro, é viável e muito agradável. Era bom que as pessoas se dessem conta disso; mas não para seguir outros exemplos.

— Será que, por enquanto, o único caminho em Portugal é o chamado «Estilo Música Portuguesa»?

— Não é bem um «estilo» de música. Houve duas ou três pessoas que criaram um tipo de canções neste país e depois houve dezenas, centenas a imitá-lo. No fundo, é aparentemente mais fácil entrar nas calhas dos outros. E o público português normalmente não compra coisas que fujam ao habitual. Vê-se isso, até a nível de «rock»: as pessoas compram um disco quando vem lá de fora a notícia do seu sucesso. Elas não assumem verdadeiramente o seu «gostar».

— E quanto a ti?

— Quando escrevo uma coisa acho que seria uma fraude tentar apanhar migalhas do êxito doutra pessoa qualquer. Escrevo sobre o que sinto e procuro o meu próprio caminho. Sou permeável e tenho influências daqui e dali, mas utilizo-as também à minha maneira. E tens o caso do «bluegrass». Eu descobri o «bluegrass» e entusiasmei-me muito com esse estilo. Isso aconteceu durante a minha última estadia em certos pontos da Europa. O material do meu último disco foi escrito nessa altura.

Uma certa visão do mundo

— Os teus poemas também parecem ir de encontro a uma certa visão do mundo. Um estilo talvez diferente da poesia de intervenção, quando estritamente política...

— Espero poder ter sempre independência espiritual. Poder gostar do que escrevo. Mesmo quando falo da chamada «paixão», tem sempre a ver com momentos de euforia, em que realmente senti isso. A nível de palavras de ordem não as posso dar. Ninguém deve dizer às pessoas o que devem fazer.

— Achas que ninguém tem o direito de dizer às pessoas o que devem fazer?

— Os governos fazem-no. Mas, realmente, só classes privilegiadas é que estão lá. Não temos sapateiros nos governos. Não temos pescadores nos governos. As pessoas que estão lá são como águias a tratar dos problemas de toupeiras. Têm consciência de que esses problemas existem, mas todos eles lhes chegam tão de fora, tocam-lhes tão pouco, que não podem de modo nenhum senti-los. Por outro lado, se fôssemos formar um governo de peixeiros e sapateiros haveria problemas desde o início, porque as pessoas não estão preparadas para tomar decisões.

— És contra os privilégios?

— Acho bem que uma pessoa tenha direito às facilidades inerentes ao desenvolver do seu trabalho e a uma vida decente. Mas não há justiça, na medida em que existem pessoas a oferecer carros como presentes de aniversário, enquanto outras nem podem dar um boneco ao seu filho. Se a pessoa precisa de um carro para trabalhar, deve tê-lo. E quem não exerce um trabalho puramente físico deve também poder viver em paz, sem ter de procurar outra coisa para a qual não tenha vocação. É preciso que, no fundo, as pessoas se realizem, pois, se estamos cá todos, é porque o mundo é de todos. Mas como é que se vai pôr as pessoas a tomar conta das suas vidas?


quinta-feira, setembro 17

MAFALDA DE SABOIA, PRINCESA NO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

Mafalda de Saboia parecia uma criança destinada a vida de conto de fadas. Segunda filha do rei Vítor Emanuel III de Itália e da rainha Helena (princesa de Montenegro), nasceu em Roma a 2 de Novembro de 1902. A monarquia parecia sólida e o futuro previsível. Os editores imprimiam milhares de postais com o seu retrato; o seu rosto infantil circulava por toda a Europa como símbolo da dinastia de Saboia.

Ninguém poderia imaginar que aquela menina acabaria por morrer num campo de concentração nazi.

Descrita como a mais espontânea e afável dos filhos do rei, Mafalda cresceu longe da política. Em 1925 casou com o príncipe Filipe de Hesse, membro de uma antiga família alemã. O casamento parecia reforçar os laços entre duas casas reinantes, mas viria a colocá-la, anos mais tarde, no centro da tragédia europeia. Filipe aderiu cedo ao Partido Nazi e tornou-se um dos intermediários entre Hitler e Mussolini. Mafalda, porém, nunca partilhou esse entusiasmo. Há testemunhos de que olhava com desconfiança para Hitler e que nunca escondeu a antipatia que lhe inspirava.

Quando a Itália assinou o armistício com os Aliados, em Setembro de 1943, Hitler decidiu vingar-se da Casa de Saboia, que considerava responsável pela queda de Mussolini. O marido foi preso e Mafalda, atraída com o pretexto de uma reunião, foi detida pela Gestapo. Sob o nome falso de Frau von Weber, foi deportada para o campo de concentração de Buchenwald.

Ali deixou de ser princesa. Passou a ser apenas uma prisioneira.

Em Agosto de 1944, um bombardeamento aliado atingiu instalações junto ao campo. Mafalda ficou gravemente ferida, sofreu queimaduras extensas e fracturas. A assistência médica foi tardia e insuficiente; acabou por morrer em 28 de Agosto de 1944, com apenas 41 anos.

A ironia da história é cruel. Filha do rei que entregou o poder a Mussolini e assinou as leis raciais de 1938, Mafalda acabaria por morrer vítima do mesmo regime nazi que o pai ajudara, indirectamente, a fortalecer.










O HOMEM QUE DORMIU DENTRO DO MARQUÊS II

 





VIDEO A PARTIR DO
Texto de Marina Tavares Dias
(ver posts anteriores)



[…] 'José Nunes Cavaco, servente de pedreiro, esteve lá em cima a ver a Lisboa pombalina e foi a última pessoa a descer dos andaimes da estátua, em 1932. Uns dias antes, o fotógrafo Ferreira da Cunha subiu a custo, ajudado pelos pedreiros, e foi bater uma chapa lá no alto, enquanto José Cavaco «retocava» a cara do Marquês.
A fotografia ficou, e é provavelmente a única tirada à estátua já no alto do pedestal e antes de terminadas as obras. Uma semana depois José Cavaco foi comprar a revista a que essa foto deu a capa, no quiosque da Avenida Fontes Pereira de Melo, entre o Hotel Avis e o Matadouro Municipal. Recortou-a, colou-a num cartão. Passaram 56 anos.'
[...]




O NIASSA E A GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Após a queda de Badajoz, a 14 de Agosto de 1936, milhares de republicanos espanhóis procuraram refúgio em Portugal, sobretudo através da fro...