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quarta-feira, abril 29

JOSHUA BENOLIEL

«Conhecia meio mundo e tinha fotografado mais do que isso. Aparecia nas visitas régias, nos banquetes e nas inaugurações oficiais, nas comemorações, nos comícios e nos cortejos. Estava às primeiras horas da madrugada entre os pregoeiros da lota, de máquina fotográfica em riste, para imortalizar os pés descalços dos pequenos ardinas ou o esforço hercúleo das peixeiras nas descargas do carvão. Conheciam-no bem e à légua, abriam alas para que passasse, com os seus ajudantes e as toneladas de acessórios, facultando-lhe o ângulo ideal em que fotografava os tumultos duma greve ou os prantos por um assassínio. E havia uma frase mágica que Joshua Benoliel lançava sempre ao vento e aos circunstantes, na sua luta para captar o fugidio instante do retrato: “É para ‘O Século’! É para ‘O Século’!”» 

Na imagem: notícia de 1918. Uma das muitas que davam como certo o final da carreira de Benoliel. No entanto, com ajuda dos seus assistentes, nomeadamente Horácio Novaes, fotografou até muito mais tarde.





VARINAS DE BENOLIEL

'[...] Das chatas e labregas que desciam a ria de Aveiro até aos mais miseráveis bairros da Lisboa de Oitocentos, as varinas cumpriram todos os rituais da estampa etnográfica. Inspiraram poetas, pintores e alfacinhas em geral, atentos aos gritos quotidianos que anunciavam a chegada do peixe: "Viva da costa!"; "Pescada do alto!"; "Olha a bela pescada marmota!". 

Um dia, desapareceram. 

Caiou-se de novo a lúgubre Madragoa e fizeram-se restaurantes finos nas antigas tascas do vinho morangueiro, sentaram-se etnógrafos a narrar origens e extinção das «gregas do ocidente», conformaram-se os outros bairros com peixe congelado dos supermercados. Foi assim aos poucos, antes que se desse por isso. Mas foi o fim de uma era. [...]'

Fotografias de Joshua Benoliel, 1909-1912.













sexta-feira, janeiro 9

LISBOA DE BENOLIEL

 Marina Tavares Dias 

em «Os Cafés de Lisboa», 1999:


(...) Dali em diante, seria impossível ignorar a fachada da nova Brasileira do Rossio. Com enorme alpendre de ferro e vidro, reproduzia elementos já utilizados na casa-mãe do Porto, como os monogramas pintados ou os frisos decorativos. Em poucas semanas, transformou-se num centro de tertúlia e conspiração. A República tinha menos de um ano e quase todos os dias havia manifestações ou cenas de tiroteio no Rossio. Uma série fotográfica famosa, de Joshua Benoliel, mostra os vidros da fachada esburacados por balas, no dia 26 de Novembro desse mesmo ano. 

Na sequência da prisão de duas charlatãs chinesas que se diziam oftalmologistas e o povo tomava por milagreiras, houve protestos e tumultos no Rossio, travando-se verdadeira batalha à porta da Brasileira. Os tiros trocados entre o povo e a guarda republicana causaram um morto e quarenta e cinco feridos. Tal como o Martinho nos tempos da Patuleia, A Brasileira rapidamente granjeou fama de café dos revolucionários mais radicais, acabando por ser satirizada até no teatro, onde Maria Victoria imortalizou o «Fado do 31», cuja primeira quadra diz: "À porta da Brasileira / Dois bicos encontram dois / Juntam-se os quatro e depois / Lá começa a chinfrineira."




terça-feira, janeiro 6

LISBOA DE BENOLIEL

Fachada da Drogaria Moderna, número 202 da Rua das Amoreiras. No dealbar do século XX são inúmeros os estabelecimento que utilizam a palavra “moderno” para melhor cativar clientes. As crenças num futuro radioso, nas suas inovações técnicas, nos seus fabulosos inventos, vão revelar-se precárias como um cenário de papelão: será demasiado fácil lançá-las à fogueira das guerras.


Marina Tavares Dias em 'Lisboa Desaparecida'


(fotografia de Joshua Benoliel, c. 1908, 

comprada por  Marina Tavares Dias em 1989)




segunda-feira, janeiro 5

JOSHUA BENOLIEL COLECCIONADOR

O fotógrafo Joshua Benoliel, cujo espólio fotográfico sobrevivente é o mais importante do início do século XX português, foi um ávido coleccionador de bilhetes postais ilustrados. 

Aproveitava os exemplares que editores para quem trabalhava lhe davam, impressos em fototipia a partir de cada fotografia sua por eles comprada. Com esses postais, estabeleceu uma verdadeira rede de correspondência entre Portugal e vários países europeus. Preferia os correspondentes franceses. Ao longo de décadas, a olisipógrafa Marina Tavares Dias frequentou todas as feiras de postais ilustrados antigos, em França, Bélgica, Reino Unido, Espanha e Itália. Após horas de buscas entre centenas de milhares de exemplares portugueses, encontrou a assinatura de Benoliel em várias «cartes pour exchange» («postais para troca»), permitindo descobrir uma faceta totalmente desconhecida do fotógrafo.




ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...