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terça-feira, abril 14

MÃE FANTASMA

 Exemplo algo assustador daquilo a que os ingleses chamam "hidden mother photograph".


O tempo de exposição era longo, nas primeiras décadas da história da fotografia. Quase sempre, parecia impossível manter os bebés quietinhos. A solução era habitual: a mãe segurava o bebé para ele não se mexer. O fotógrafo queria que ela não aparecesse, para manter o foco nas crianças.O pano escuro ajudava a absorver luz, e a composição criava um 'vulto' que deveria 'desaparecer' no fundo. Aos nossos olhos, contudo, é bastante evidente.


O que chama mais a atenção é que a cabeça, tronco e braços da mãe estão totalmente cobertos, sugerindo estúdio mais modesto ou fotógrafo com menos habilidade para esconder a figura com elegância.


As fotografias das 'mães ocultas' são raras e têm muitos coleccionadores.






segunda-feira, janeiro 19

Cartes-de-visite

Esta variante das cartes-de-visite de 'cabeça cortada', uma 'cabeça na bandeja' com o cabelo em pé, é particularmente interessante porque cruza três tradições visuais do século XIX: o truque fotográfico, a cultura científica do choque eléctrico e o humor negro victoriano.


O cabelo eriçado não é um defeito técnico nem resultado do recorte. É um efeito procurado, imediatamente reconhecível para o público oitocentista. Na segunda metade do século XIX, o cabelo em pé associava-se a experiências de electricidade estática (máquinas de fricção, garrafas de Leiden), a demonstrações públicas em feiras, liceus e salões científicos, e à ideia moderna de 'energia invisível'. Acabeça não está apenas “cortada” — está electrificada. A iconografia bíblica de São João Baptista, a cabeça apresentada numa bandeja, é referência imediata, muito difundida na pintura e na gravura: Salomé, Herodes, o martírio. O resultado é uma imagem híbrida: uma espécie de 'mártir no laboratório com humor macabro'.




domingo, janeiro 11

Cartes-de-visite

 Conjunto de cartes-de-visite do século XIX, pertencentes ao género da chamada 'fotografia de cabeça perdida' ('headless portrait', na expressão usada pelos coleccionadores), uma das mais populares e ousadas formas de fotografia de truque oitocentista. Estas encenações de estúdio eram obtidas por dupla exposição, montagem fotográfica e retoque manual e destinavam-se a surpreender, divertir e demonstrar a perícia técnica do próprio fotógrafo.


Na primeira imagem, a encenação é deliberadamente chocante: o corpo do retratado surge erecto, empunhando uma faca, enquanto segura a própria cabeça decepada. O sangue visível — provavelmente aplicado por retoque posterior sobre a prova em albumina — acentua o efeito dramático e aproxima a fotografia de um humor negro explícito, raro mas não inexistente no final do século XIX. Esta variante revela um gosto mais tardio e ousado, quando o público já estava habituado aos truques fotográficos e procurava imagens mais fortes e provocatórias.


A segunda imagem apresenta uma versão mais controlada do mesmo motivo: a cabeça pousada numa bandeja, segura com cuidado pelo próprio retratado, sobre um fundo negro teatral. A ausência de sangue e a pose quase cerimonial remetem para a iconografia bíblica tradicional. A fotografia equilibra humor, erudição visual e virtuosismo técnico, aproximando-se da encenação.


Na terceira imagem, a abordagem é mais subtil e irónica: o corpo sem cabeça apoia-se com naturalidade num pedestal clássico, enquanto a cabeça repousa na própria mão, num gesto que evoca reflexão ou contemplação. O cenário de estúdio, com coluna e tecido decorativo, inscreve a imagem num registo plenamente aceitável para circulação em álbuns familiares, revelando como este género podia ser simultaneamente excêntrico e ssocialmente 'respeitável'.


Em conjunto, estas três fotografias ilustram a diversidade de tons do retrato sem cabeça, do grotesco ao subtil, e demonstram que a cultura visual oitocentista estava longe de ser ingénua. Pelo contrário, explorava conscientemente os limites da fotografia enquanto suposta prova da realidade, transformando-a num espaço de ilusão, humor negro e comentário irónico.


Muito antes do Photoshop, da Inteligência Artificial ou dos 'efeitos especiais' cinematográficos, as cartes-de-visite oitocentistas já mostravam gente assim: de 'cabeça perdida'. 


























terça-feira, janeiro 6

Cartes-de-visite

Do ponto de vista técnico, a carte-de-visite baseava-se quase sempre num processo de contacto directo entre negativo e papel, sem ampliação. O negativo era produzido numa câmara especial de retrato, equipada com múltiplas objectivas (4, 6, 8 ou mais), que impressionavam simultaneamente várias imagens pequenas numa única chapa de vidro. Cada exposição gerava assim uma grelha de retratos idênticos, permitindo uma produção eficiente e económica.

Os negativos eram, até finais da década de 1870, maioritariamente em colódio húmido sobre vidro, um processo que exigia preparação, exposição e revelação imediatas. Apesar das dificuldades práticas, o colódio oferecia uma definição extraordinária, essencial para o pequeno formato da carte. A partir da década de 1870 surgem gradualmente os negativos de colódio seco, mais práticos, embora o princípio de impressão se mantenha.

A impressão fazia-se quase invariavelmente em papel albuminado, sensibilizado com sais de prata e exposto à luz solar numa moldura de contacto. Cada imagem da chapa negativa era recortada e montada sobre cartão rígido, normalmente com a marca do estúdio impressa no verso. A nitidez característica das cartes-de-visite resulta precisamente desta impressão por contacto, que transfere fielmente todos os detalhes do negativo para o papel.

Até cerca de 1880, a ampliação óptica era rara neste formato (não era usado o 'ampliador' de estúdio para impressão). As cartes não eram ampliadas: eram impressões directas, pensadas desde a captação para o tamanho final. Só com a generalização dos papéis de gelatina-brometo e do ampliador fotográfico, nas últimas décadas do século XIX, começa essa mudar a prática.

A partir do final da década de 1850, as 'cartes-de-visite' representam um verdadeiro dispositivo social e industrial, responsável pela primeira circulação massiva de imagens fotográficas na história.






Cartes-de-visite com retratos
da Rainha D. Maria Pia
e da futura Rainha D. Amélia 




ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...