sábado, fevereiro 21

ANTÓNIO DA SILVA MAGALHÃES, O FOTÓGRAFO DE TOMAR

António da Silva Magalhães nasceu em Tomar a 19 de Junho de 1834 e morreu na mesma cidade em 3 de Março de 1897. Foi o grande cronista fotográfico de Tomar no século XIX.

Iniciou a sua atividade profissional em 1862, fundando o primeiro gabinete de fotografia da cidade, associado a uma tipografia própria. Instalado na então Rua Direita da Várzea Pequena — que mais tarde viria a receber o seu nome —, o estúdio de Silva Magalhães tornou-se rapidamente um polo de inovação técnica e cultural. Trabalhou com os principais processos fotográficos do seu tempo, do colódio húmido às provas em albumina, produzindo retratos de estúdio, vistas urbanas, paisagens, registos de obras públicas, acontecimentos cívicos e cenas do quotidiano.

A sua obra distingue-se pela qualidade técnica e por um claro sentido documental. Graças a ele, Tomar é hoje uma das cidades portuguesas melhor documentadas fotograficamente no século XIX. Para além da fotografia, Silva Magalhães teve uma intensa atividade intelectual e cívica: foi tipógrafo, editor, jornalista e político local. Em 1880, fundou o jornal 'A Verdade', que dirigiu até à morte, usando-o como espaço de debate público, divulgação cultural e intervenção cívica.

Foi também vereador da Câmara Municipal de Tomar, promotor de iniciativas culturais, fundador de associações recreativas e impulsionador da modernização da cidade. Homem de vasta curiosidade, interessou-se pela ciência, pela técnica, pela agricultura e pelas novas invenções — sendo recordado como um espírito progressista e atento ao seu tempo.

































domingo, fevereiro 15

A MALDIÇÃO DA RAMONA

O meu avô não era supersticioso. Pelo menos não no sentido comum. Ria-se de presságios, não acreditava em sinais nem em agoiros, tinha pouca paciência para crenças herdadas. Nisso, distinguia-se de outras figuras da sua geração, como Fernando Pessoa, que chegou a escrever, com a sua habitual lucidez paradoxal, sobre a necessidade humana das superstições, como forma de lidar com o indizível. O meu avô não precisava disso. Era um homem muito prático. Ou assim parecia.

Porque havia uma excepção: a ‘Ramona’. Associava essa música a tragédias que lhe eram anteriores: o naufrágio do Titanic, o incêndio do Teatro Baquet, o também trágico incêndio da Rua da Madalena, etc., etc., etc. Talvez soubesse que a cronologia não batia certo, mas, para ele, a ‘Ramona’ representava tempos de desgraça. Fossem eles que tempos fossem.

Na primeira metade do século XX existiram outras canções com fama parecida, como a húngara ‘Gloomy Sunday’ (chamada “canção do suicídio”), ligada, nos jornais dos anos 30, a uma série de mortes, e mesmo proibida em várias estações de rádio, incluindo a BBC. Não sei se a BBC passava ou não a ‘Ramona’. Sei que, lá em casa, era interdita a todas as gerações. 

O filme ‘Ramona’, ainda mudo, passou em Lisboa em 1929. Era acompanhado ao piano, como de costume nos cinemas de estreia. A partitura foi editada e a música espalhou-se pelos pianos de sala. Depois, apareceu o disco de 78 rotações. Em suma: entrou nas casas lisboetas, onde se tornou ‘perigosa’.

O avô não nos deixava ouvir. Ponto. Partiu todos os discos que tinha. Não os escondeu, não os vendeu, não os afastou. Partiu-os mesmo. Vários. A minha mãe já tinha tentado ouvir um deles, que rapidamente desaparecera.

Um dia, na Feira da Ladra, encontrei o 78 rotações da ‘Ramona’. Impecável, dentro da embalagem original e aparentando nunca ter sido tocado. Os discos antigos eram facilmente quebráveis (bastava caírem ao chão), e por isso o meu achado era raro.

Comprei-o precisamente porque ‘dava azar’. De propósito, para o ouvir no gramofone que o avô ainda tinha no quarto. Para ver se o bruxedo era a sério e se ia eu desfazê-lo. Não o desfiz. Assim que me apresentei ao avô com o meu cobiçado achado, radiante por poder confirmar que não existem canções malditas, ele arrancou-me aquilo das mãos e, com uma fúria que lhe desconhecia, partiu-o violentamente de encontro ao mármore da cómoda.

Fiquei podre. O respeitinho fez- me balbuciar apenas um ‘Oh, Avô!’, mas estive capaz de me pôr a chorar. Só para ele ver como me privara de uma deliciosa experiência proibida. Decerto pensando que salvara a nossa casa de discussões, avarias, acidentes, terramotos, incêndios e outras coisas mais, ao som daquilo que nunca se poderia ‘ouvir outra vez’.

Marina Tavares Dias 






sexta-feira, fevereiro 6

E QUANDO O TEJO CHEGAR AOS PÉS DE SANTA IRIA?

Poucas invocações religiosas terão gerado tradição tão rica, prolongada e múltipla como a de Santa Iria. Basta contar-lhe os topónimos: atravessa Portugal de norte a sul — de Santarém (Santa-IRem) à Póvoa de Sta. Iria, passando por Sta. Iria de Azóia, no centro tão simbólico do país na Cova da Iria, e reaparecendo no Atlântico, no Miradouro de Sta. Iria e no Porto de Sta. Iria, em São Miguel.


A celebrada Iria terá vivido no final do século VII (ou início do século VIII), num tempo ainda visigótico, anterior à invasão muçulmana da Península. Foi educada num mosteiro em Nabância, a actual Tomar, e era conhecida pela sua instrução, pela sua devoção e pela sua graciosidade.


O clérigo Remígio apaixonou-se por ela. Iria rejeitou-o. A rejeição transformou-a Remígio em vingança, espalhando o boato de que Iria estava grávida, acusação gravíssima para uma mulher consagrada a Deus. Para tornar a calúnia credível, ele recorreu a uma poção. Ao bebê-la, Iria adoeceu gravemente. O corpo inchado fez a mentira passar a assumida verdade.


Britaldo, homem igualmente apaixonado e que exercia a autoridade na Nabância, deu como verdadeira a acusação e precipitou-lhe a morte, assassinada à facada. O corpo foi lançado ao rio Nabão.


A partir desse momento, a história muda-se para o registo da lenda, e dela passa a mito. O corpo desce o rio até ao Zêzere e até ao Tejo. Chega finalmente à ribeira de Santarém, então ainda com a designação romana ‘Scalabis’. Nasce o culto de Santa Iria, e a cidade passa a ligar o seu nome à santa: ‘Santa-Rem’.


A Rainha Santa Isabel visitou Santarém para venerar o lugar onde o corpo de Santa Iria fora encontrado. Diz-se que as águas do rio se afastaram para lhe permitir aproximar-se. Mandou assinalar o local.


As cheias do Tejo e as sucessivas transformações da frente fluvial fizeram desaparecer esse sinal primitivo. Entre os séculos XVII e XVIII, o antigo marco foi substituído pelo padrão actual, com nicho e imagem da santa. Continua referência das cheias. Nele ficaram marcadas as grandes subidas da água e a inscrição em latim: ‘À divina Santa Iria, da Ordem de São Bento. Aqui jaz Iria: este túmulo sagrado guarda os seus ossos.'


O vale de Santarém conheceu cheias por vezes devastadoras: a grande tragédia de 1876, o temporal de 1941, as cheias de 1979 e de 1989. A Ribeira vive há séculos num equilíbrio delicado entre o rio, a lezíria e a habitação humana.


Diz-se que o mundo tem limite visível e silencioso: os pés da Santa Iria. A água pode subir, engolir campos, galgar caminhos, transformar a ribeira num espelho sem margens — mas pára ali.


Quando, como neste Inverno tão chuvoso, a corrente traz detritos, árvores e o medo antigo, olha-se para o padrão e mede-se o tempo pelo corpo da santa. Se a água tocar nos pés dela, o mar entrou pelo Tejo dentro, e Lisboa e o rio desfazem-se. 


Por isso a frase ancestral: ‘Quando a água chegar aos pés de Santa Iria, o mundo acaba nesse mesmo dia.’





Fotografias 
de Marina Tavares Dias 



Fototipia de Emílio Biel





Postais ilustrados da primeira
 e da terceira década do século XX 


ALEXANDRE HERCULANO

 «Um dia em que atravessava da Lisboa arabe para a Lisboa romana, da Alfama para o Castello, não sei como passei pelo sitio onde existiu o c...