quarta-feira, junho 24

APELES ESPANCA: ÍCARO EM LISBOA

Apeles Demóstenes da Rocha Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 10 de Março de 1897. Irmão de Florbela Espanca, oficial da Marinha, pintor amador e desportista, Apeles era recordado em Vila Viçosa e Campo Maior como um jovem bonito e carismático. Muitas décadas após a sua morte, as suas antigas parceiras de ténis ainda diziam que “todas as raparigas estavam apaixonadas por ele”.

Apeles tem presença transfigurada na literatura da irmã. No conto 'O Aviador', integrado num caderno manuscrito de narrativas (hoje dispersas), Florbela não traça um retrato biográfico. Cria personagem simbólica: o homem errante, sonhador e inquieto, atraído pela liberdade do voo e pela conquista do impossível. Alguém que deixa para trás “as algemas” da vida comum para subir em direcção ao céu: tal a admiração que a autora sentia pelo irmão.

Tragicamente, a ficção superaria a realidade. O jovem aviador morreu a 6 de Junho de 1927, durante um voo de treino do seu hidroavião Hanriot. Os recortes de Imprensa conservados pela família descrevem-no como “piloto já quasi feito” e “enthusiasta da aviação, estudioso, sabedor do seu mister”. O hidroavião que Apeles pilotava caiu no Tejo perante numerosas testemunhas. Seguiram-se buscas intensas com embarcações, mergulhadores e meios da Armada, mas o corpo nunca foi recuperado.

A morte do irmão constituiu um dos maiores desgostos da vida de Florbela Espanca. Três anos mais tarde, quando a poetisa morreu, a figura de Apeles já fazia parte da sua lenda íntima: irmão amado, aventureiro, aviador desaparecido nas águas. Entre realidade e literatura, a memória do belo Apeles permaneceu para sempre suspensa no tempo. Nesse espaço onde os homens, como escreveu Florbela, parecem ter asas.



Apeles fotografado
em Vila Viçosa pelo
pai, José Maria Espanca 
(1919)


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