sexta-feira, janeiro 9

LISBOA DE BENOLIEL

 Marina Tavares Dias 

em «Os Cafés de Lisboa», 1999:


(...) Dali em diante, seria impossível ignorar a fachada da nova Brasileira do Rossio. Com enorme alpendre de ferro e vidro, reproduzia elementos já utilizados na casa-mãe do Porto, como os monogramas pintados ou os frisos decorativos. Em poucas semanas, transformou-se num centro de tertúlia e conspiração. A República tinha menos de um ano e quase todos os dias havia manifestações ou cenas de tiroteio no Rossio. Uma série fotográfica famosa, de Joshua Benoliel, mostra os vidros da fachada esburacados por balas, no dia 26 de Novembro desse mesmo ano. 

Na sequência da prisão de duas charlatãs chinesas que se diziam oftalmologistas e o povo tomava por milagreiras, houve protestos e tumultos no Rossio, travando-se verdadeira batalha à porta da Brasileira. Os tiros trocados entre o povo e a guarda republicana causaram um morto e quarenta e cinco feridos. Tal como o Martinho nos tempos da Patuleia, A Brasileira rapidamente granjeou fama de café dos revolucionários mais radicais, acabando por ser satirizada até no teatro, onde Maria Victoria imortalizou o «Fado do 31», cuja primeira quadra diz: "À porta da Brasileira / Dois bicos encontram dois / Juntam-se os quatro e depois / Lá começa a chinfrineira."




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