Poucas invocações religiosas terão gerado tradição tão rica, prolongada e múltipla como a de Santa Iria. Basta contar-lhe os topónimos: atravessa Portugal de norte a sul — de Santarém (Santa-IRem) à Póvoa de Sta. Iria, passando por Sta. Iria de Azóia, no centro tão simbólico do país na Cova da Iria, e reaparecendo no Atlântico, no Miradouro de Sta. Iria e no Porto de Sta. Iria, em São Miguel.
A celebrada Iria terá vivido no final do século VII (ou início do século VIII), num tempo ainda visigótico, anterior à invasão muçulmana da Península. Foi educada num mosteiro em Nabância, a actual Tomar, e era conhecida pela sua instrução, pela sua devoção e pela sua graciosidade.
O clérigo Remígio apaixonou-se por ela. Iria rejeitou-o. A rejeição transformou-a Remígio em vingança, espalhando o boato de que Iria estava grávida, acusação gravíssima para uma mulher consagrada a Deus. Para tornar a calúnia credível, ele recorreu a uma poção. Ao bebê-la, Iria adoeceu gravemente. O corpo inchado fez a mentira passar a assumida verdade.
Britaldo, homem igualmente apaixonado e que exercia a autoridade na Nabância, deu como verdadeira a acusação e precipitou-lhe a morte, assassinada à facada. O corpo foi lançado ao rio Nabão.
A partir desse momento, a história muda-se para o registo da lenda, e dela passa a mito. O corpo desce o rio até ao Zêzere e até ao Tejo. Chega finalmente à ribeira de Santarém, então ainda com a designação romana ‘Scalabis’. Nasce o culto de Santa Iria, e a cidade passa a ligar o seu nome à santa: ‘Santa-Rem’.
A Rainha Santa Isabel visitou Santarém para venerar o lugar onde o corpo de Santa Iria fora encontrado. Diz-se que as águas do rio se afastaram para lhe permitir aproximar-se. Mandou assinalar o local.
As cheias do Tejo e as sucessivas transformações da frente fluvial fizeram desaparecer esse sinal primitivo. Entre os séculos XVII e XVIII, o antigo marco foi substituído pelo padrão actual, com nicho e imagem da santa. Continua referência das cheias. Nele ficaram marcadas as grandes subidas da água e a inscrição em latim: ‘À divina Santa Iria, da Ordem de São Bento. Aqui jaz Iria: este túmulo sagrado guarda os seus ossos.'
O vale de Santarém conheceu cheias por vezes devastadoras: a grande tragédia de 1876, o temporal de 1941, as cheias de 1979 e de 1989. A Ribeira vive há séculos num equilíbrio delicado entre o rio, a lezíria e a habitação humana.
Diz-se que o mundo tem limite visível e silencioso: os pés da Santa Iria. A água pode subir, engolir campos, galgar caminhos, transformar a ribeira num espelho sem margens — mas pára ali.
Quando, como neste Inverno tão chuvoso, a corrente traz detritos, árvores e o medo antigo, olha-se para o padrão e mede-se o tempo pelo corpo da santa. Se a água tocar nos pés dela, o mar entrou pelo Tejo dentro, e Lisboa e o rio desfazem-se.
Por isso a frase ancestral: ‘Quando a água chegar aos pés de Santa Iria, o mundo acaba nesse mesmo dia.’





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