domingo, fevereiro 15

A MALDIÇÃO DA RAMONA

O meu avô não era supersticioso. Pelo menos não no sentido comum. Ria-se de presságios, não acreditava em sinais nem em agoiros, tinha pouca paciência para crenças herdadas. Nisso, distinguia-se de outras figuras da sua geração, como Fernando Pessoa, que chegou a escrever, com a sua habitual lucidez paradoxal, sobre a necessidade humana das superstições, como forma de lidar com o indizível. O meu avô não precisava disso. Era um homem muito prático. Ou assim parecia.

Porque havia uma excepção: a ‘Ramona’. Associava essa música a tragédias que lhe eram anteriores: o naufrágio do Titanic, o incêndio do Teatro Baquet, o também trágico incêndio da Rua da Madalena, etc., etc., etc. Talvez soubesse que a cronologia não batia certo, mas, para ele, a ‘Ramona’ representava tempos de desgraça. Fossem eles que tempos fossem.

Na primeira metade do século XX existiram outras canções com fama parecida, como a húngara ‘Gloomy Sunday’ (chamada “canção do suicídio”), ligada, nos jornais dos anos 30, a uma série de mortes, e mesmo proibida em várias estações de rádio, incluindo a BBC. Não sei se a BBC passava ou não a ‘Ramona’. Sei que, lá em casa, era interdita a todas as gerações. 

O filme ‘Ramona’, ainda mudo, passou em Lisboa em 1929. Era acompanhado ao piano, como de costume nos cinemas de estreia. A partitura foi editada e a música espalhou-se pelos pianos de sala. Depois, apareceu o disco de 78 rotações. Em suma: entrou nas casas lisboetas, onde se tornou ‘perigosa’.

O avô não nos deixava ouvir. Ponto. Partiu todos os discos que tinha. Não os escondeu, não os vendeu, não os afastou. Partiu-os mesmo. Vários. A minha mãe já tinha tentado ouvir um deles, que rapidamente desaparecera.

Um dia, na Feira da Ladra, encontrei o 78 rotações da ‘Ramona’. Impecável, dentro da embalagem original e aparentando nunca ter sido tocado. Os discos antigos eram facilmente quebráveis (bastava caírem ao chão), e por isso o meu achado era raro.

Comprei-o precisamente porque ‘dava azar’. De propósito, para o ouvir no gramofone que o avô ainda tinha no quarto. Para ver se o bruxedo era a sério e se ia eu desfazê-lo. Não o desfiz. Assim que me apresentei ao avô com o meu cobiçado achado, radiante por poder confirmar que não existem canções malditas, ele arrancou-me aquilo das mãos e, com uma fúria que lhe desconhecia, partiu-o violentamente de encontro ao mármore da cómoda.

Fiquei podre. O respeitinho fez- me balbuciar apenas um ‘Oh, Avô!’, mas estive capaz de me pôr a chorar. Só para ele ver como me privara de uma deliciosa experiência proibida. Decerto pensando que salvara a nossa casa de discussões, avarias, acidentes, terramotos, incêndios e outras coisas mais, ao som daquilo que nunca se poderia ‘ouvir outra vez’.

Marina Tavares Dias 






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