domingo, março 1

AS VISTAS ESTEREOCÓPICAS DE GOULART

Entre os editores portugueses de estereoscopia no virar do século XIX para o XX, a figura de Manuel Goulart destaca-se pela coerência temática e pela ligação directa ao mundo atlântico português. Nascido no Faial (Açores) em 1866, iniciou a actividade fotográfica na Horta e emigrou para New Bedford (Massachusetts) em 1889, onde manteve um estúdio, sobretudo dedicado ao retrato. 

A sua relevância prende-se com uma série comercial editada nos EUA após uma viagem realizada em 1895, que reuniu vistas dos Açores, Madeira e Portugal. Essa tríade aparece explicitamente impressa nos cartões que denomina “AZORES, MADEIRA and PORTUGAL”, definindo um catálogo identitário pensado para a diáspora e para um público interessado em imagens da terra natal.

Os cartões seguem o formato ‘standard’, com numeração de série e a indicação “Copyright, 1897, by M. Goulart, New Bedford, Mass.”. O design revela cuidado gráfico: na frente, uma moldura discreta (frequentemente cinzenta) enquadra as duas imagens; no verso, surgem motivos decorativos alusivos a Portugal — vinhas, touradas, trajes — compondo uma iconografia que reforça o carácter “nacional” do conjunto. Esta combinação de marca editorial clara e numeração e decoração temática distingue os cartões de Goulart no mercado antiquário e nas colecções museológicas.

No que toca às vistas de Lisboa, é possível identificar títulos e números concretos. Entre eles: 5 – “Rua D’Elrei, Lisboa”; 44 – “Avenida da Liberdade, Lisboa” (uma vista de rua muito procurada, frequentemente com transeuntes e animação urbana); 48 – “Vista Panoramica, Lisboa” (panorama com o porto e embarcações); 52 – “Torre de Belém”; além de temas como “Chiado, Lisboa”, “Basílica da Estrela, Lisboa” e “Estátua de D. José / Terreiro do Paço”. A série inclui ainda cenas de costumes, como “Toirada, Lisboa”, ampliando o repertório para além do monumental. Fora da capital, a colecção cobre localidades continentais e insulares.

A importância de Manuel Goulart reside nestes três pontos. Primeiro, a mediação transatlântica: as suas estereoscopias circularam nos EUA, respondendo ao desejo de memória e pertença das comunidades emigrantes, sobretudo numa área onde estavam em grande número: New Bedford. Segundo, a fixação de uma iconografia urbana — Lisboa surge através de eixos modernos (Avenida da Liberdade), praças emblemáticas (Terreiro do Paço, Rossio) e monumentos-símbolo (Belém, Estrela). Terceiro, a afirmação editorial: ao assinar e numerar sistematicamente os cartões, Goulart construiu uma marca reconhecível, hoje identificável em acervos e leilões. Embora o seu negócio principal tenha sido o retrato, a série estereoscópica “Azores, Madeira and Portugal” é o testemunho mais consistente da sua contribuição para a fotografia portuguesa no início do século XX.







Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.

ALEXANDRE HERCULANO

 «Um dia em que atravessava da Lisboa arabe para a Lisboa romana, da Alfama para o Castello, não sei como passei pelo sitio onde existiu o c...