Em 1895, Eça de Queiroz sonhava ainda com a edição de revistas. Não lhe bastava ter incendiado consciências em romance: queria ser o ‘serão impresso’, doméstico e elegante, que entrasse nas casas portuguesas. Imaginou a capa dessa revista. Para ser a melhor das melhores, teria de pintá-la Columbano Bordallo Pinheiro.
A revista nunca nasceu. Ficou em esboço, suspensa entre a estética e a hesitação. O que nasceu, isso sim, foi um retrato. Columbano pintou Eça com a gravidade luminosa de quem fixa uma consciência. Diziam que a tela respirava, que havia nela uma ironia contida, uma fadiga subtil nas mãos.
Exposto em Paris, o quadro confirmou o pintor como intérprete de almas. Quando Eça morreu, no Verão de 1900, o retrato tornou-se quase uma relíquia. Assim foi apresentado na Exposição Universal de 1900. E então o mar interveio. No regresso de Paris, o vapor Saint-André levou consigo para o fundo telas, esculturas, cerâmicas, papéis e memórias. Afundou-se ao largo de Sagres.
Entre as perdas estava o retrato de Eça e documentos vindos de Neuilly, onde a escritor vivera os últimos tempos. Só se recuperaram destroços de madeira, pequenos objectos. E um silêncio salgado. Ou seja, o verdadeiro ‘serão português’: artistas que discutem estéticas e modos de vida, obras que brilham um instante e depois desaparecem e um país que aprende a conviver com a ausência.

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