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segunda-feira, julho 20

O GENERAL QUE VEIO PARA PORTUGAL PREPARAR A GUERRA DE ESPANHA



Há exactamente 90 anos, um avião caiu em Cascais e mudou a história de Espanha.

Quando a Frente Popular venceu as eleições espanholas de Fevereiro de 1936, José Sanjurjo vivia havia quase dois anos no Estoril. Exilara-se em Portugal depois do fracasso da "Sanjurjada", a tentativa de golpe militar de Agosto de 1932 contra a República. Condenado inicialmente à morte, viu a pena ser comutada e acabou por instalar-se na então tranquila costa do Estoril, primeiro no Hotel Miramar e depois na Vila Leocádia, na Avenida Sabóia.

Longe de representar um afastamento da política, o exílio português transformou-se no centro das suas actividades conspirativas. Pela casa do Estoril passaram alguns dos principais dirigentes da direita espanhola, entre eles José Calvo Sotelo, Antonio Goicoechea e Gil Robles. Era ali que se reuniam militares monárquicos, carlistas e políticos que preparavam o derrube da República.

Embora o verdadeiro organizador da conspiração fosse o general Emilio Mola, Sanjurjo era reconhecido por todos como o futuro chefe do movimento. Franco, então comandante militar das Canárias, não ocupava ainda essa posição. O plano previa que, uma vez iniciada a revolta militar em Marrocos, Sanjurjo voasse de Portugal para Burgos e assumisse a chefia suprema dos nacionalistas.

Foi precisamente isso que tentou fazer na tarde de 20 de Julho de 1936. O pequeno De Havilland Puss Moth, pilotado por Juan Antonio Ansaldo, levantou voo da Quinta da Marinha, em Cascais, mas despenhou-se poucos segundos depois. Sanjurjo morreu no acidente; o seu corpo ficou carbonizado entre os destroços do aparelho. A morte privou a insurreição do homem que todos reconheciam como líder natural.

O historiador Paul Preston considera este um dos momentos decisivos da Guerra Civil. Sanjurjo era o general de maior prestígio entre os conspiradores e o candidato consensual à chefia do novo regime. A sua morte abriu um vazio de poder que Franco soube ocupar com extraordinária habilidade política. Nos meses seguintes, beneficiando também da morte de Mola em Junho de 1937, concentrou progressivamente todo o poder militar e político, tornando-se Generalíssimo e Chefe do Estado.

É impossível saber como teria evoluído a história de Espanha se Sanjurjo tivesse chegado vivo a Burgos. Mas uma coisa parece hoje segura: a queda do pequeno avião nos pinhais de Cascais alterou profundamente o rumo da Guerra Civil. Em certo sentido, foi em Portugal que se decidiu quem iria governar a Espanha durante quase quarenta anos.


Marina Tavares Dias




Sanjurjo na Quinta da Marinha
no dia 20 de Julho de 1936


Placa do monumento a Sanjurjo em Cascais



Destroços do avião
no dia 20 de Julho de 1936
(Arquivo do jornal 'O Século')






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