quarta-feira, julho 29

JOÃO CÉSAR MONTEIRO E A MÃO MORTA

 Entre os muitos encantos do filme ‘Silvestre’ (1981) está a extraordinária recriação de uma assustadora parte da tradição oral portuguesa. O argumento é de João César Monteiro e os diálogos foram escritos em colaboração com Maria Velho da Costa, cuja linguagem poética e arcaizante contribui decisivamente para a atmosfera única do filme. 

A obra cruza dois contos tradicionais portugueses: ‘A Donzela que Vai à Guerra' e 'A Mão do Finado’, este último pertencente ao ciclo do ‘Barba Azul’.

O conto ‘A Mão do Finado' foi publicado por Teófilo Braga na colectânea ‘Contos Tradicionaes do Povo Portuguez’ (1883), preservando a narrativa transmitida oralmente durante gerações. João César Monteiro retomou-a, mas transformou-a cinematograficamente, recorrendo a diálogos que evocam a linguagem dos velhos romanceiros e dos contos populares. Por detrás da história está uma antiga crença muito difundida em Portugal. 

José Leite de Vasconcelos registou que se dizia que alguns ladrões levavam consigo uma mão de finado (morto) acesa, capaz de fazer cair em sono profundo todos os habitantes de uma casa enquanto decorriam os assaltos. Esta superstição conhecia variantes regionais e insere-se no vasto conjunto de crenças europeias sobre objectos mágicos obtidos a partir de cadáveres, conhecidos como ‘Hand of Glory’. 

A expressão "mão morta" não ficou confinada ao conto de Teófilo Braga nem à superstição recolhida por Leite de Vasconcelos. Sobreviveu no imaginário infantil. Há variantes antigas recolhidas no século XIX, como:

"Mão morta,

Mão morta,

Te bate na porta.

Se não tens que lhe dar,

Dá-lhe sal do mar."

Ou ainda a versão:

"Mão morta, mão morta,

Vai bater àquela porta,

Que está lá o mau,

Que te dá com o pau.”

José Saramago parece ter intuído essa associação quando escreveu em ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’: "mão morta, mão morta, que não irás bater àquela porta", evocando deliberadamente a velha lengalenga infantil.

Assim, em ‘Silvestre’, César e Maria Velho da Costa não recuperam apenas o conto tradicional: trazem para o cinema um fragmento do imaginário popular português, onde a literatura, a superstição e a memória colectiva se fundem na noite dos tempos.


Marina Tavares Dias














segunda-feira, julho 27

O CASAMENTO DA RAPOSA





Ontem de manhã, chovia e fazia sol. Quando a chuva cai enquanto o sol continua a brilhar, a tradição portuguesa diz que é "casamento de raposa". Expressão transmitida de geração em geração e que faz parte do nosso património oral, sendo uma das muitas formas de explicar um fenómeno meteorológico raro e contraditório através da imaginação popular. Manhoso como as raposas.

A associação entre a raposa e a chuva com sol não é exclusivamente portuguesa. Encontra-se na Galiza, no País Basco, em Itália e, sobretudo, no Japão, onde o misterioso "casamento da raposa" (kitsune no yomeiri) pertence ao imaginário tradicional há séculos.

Foi precisamente esse provérbio japonês que inspirou um dos episódios mais conhecidos do filme "Sonhos" (1990), de Akira Kurosawa. Nele, um menino surpreende a misteriosa procissão do casamento das raposas durante uma chuvada com sol, entrando num mundo onde natureza e surreal se confundem.

A mesma crença popular atravessou continentes e culturas, mantendo viva a imagem fantástica do casamento das raposas matreiras e enfeitadas.







segunda-feira, julho 20

O GENERAL QUE VEIO PARA PORTUGAL PREPARAR A GUERRA DE ESPANHA



Há exactamente 90 anos, um avião caiu em Cascais e mudou a história de Espanha.

Quando a Frente Popular venceu as eleições espanholas de Fevereiro de 1936, José Sanjurjo vivia havia quase dois anos no Estoril. Exilara-se em Portugal depois do fracasso da "Sanjurjada", a tentativa de golpe militar de Agosto de 1932 contra a República. Condenado inicialmente à morte, viu a pena ser comutada e acabou por instalar-se na então tranquila costa do Estoril, primeiro no Hotel Miramar e depois na Vila Leocádia, na Avenida Sabóia.

Longe de representar um afastamento da política, o exílio português transformou-se no centro das suas actividades conspirativas. Pela casa do Estoril passaram alguns dos principais dirigentes da direita espanhola, entre eles José Calvo Sotelo, Antonio Goicoechea e Gil Robles. Era ali que se reuniam militares monárquicos, carlistas e políticos que preparavam o derrube da República.

Embora o verdadeiro organizador da conspiração fosse o general Emilio Mola, Sanjurjo era reconhecido por todos como o futuro chefe do movimento. Franco, então comandante militar das Canárias, não ocupava ainda essa posição. O plano previa que, uma vez iniciada a revolta militar em Marrocos, Sanjurjo voasse de Portugal para Burgos e assumisse a chefia suprema dos nacionalistas.

Foi precisamente isso que tentou fazer na tarde de 20 de Julho de 1936. O pequeno De Havilland Puss Moth, pilotado por Juan Antonio Ansaldo, levantou voo da Quinta da Marinha, em Cascais, mas despenhou-se poucos segundos depois. Sanjurjo morreu no acidente; o seu corpo ficou carbonizado entre os destroços do aparelho. A morte privou a insurreição do homem que todos reconheciam como líder natural.

O historiador Paul Preston considera este um dos momentos decisivos da Guerra Civil. Sanjurjo era o general de maior prestígio entre os conspiradores e o candidato consensual à chefia do novo regime. A sua morte abriu um vazio de poder que Franco soube ocupar com extraordinária habilidade política. Nos meses seguintes, beneficiando também da morte de Mola em Junho de 1937, concentrou progressivamente todo o poder militar e político, tornando-se Generalíssimo e Chefe do Estado.

É impossível saber como teria evoluído a história de Espanha se Sanjurjo tivesse chegado vivo a Burgos. Mas uma coisa parece hoje segura: a queda do pequeno avião nos pinhais de Cascais alterou profundamente o rumo da Guerra Civil. Em certo sentido, foi em Portugal que se decidiu quem iria governar a Espanha durante quase quarenta anos.


Marina Tavares Dias




Sanjurjo na Quinta da Marinha
no dia 20 de Julho de 1936


Placa do monumento a Sanjurjo em Cascais



Destroços do avião
no dia 20 de Julho de 1936
(Arquivo do jornal 'O Século')






terça-feira, julho 14

A PONTE DA CHAMUSCA

A fotografia documenta a construção da ponte metálica sobre o rio Tejo, na Chamusca, inaugurada em 31 de Agosto de 1909. A obra veio substituir as antigas travessias em barcas (frequentemente interrompidas pelas cheias). Facilitando comunicações entre a Chamusca e a Golegã, foi um importante melhoramento para toda a região ribatejana.

Com cerca de 756 metros de comprimento – medida que surge inscrita na própria montagem fotográfica –, a ponte foi construída pela empresa francesa Fives-Lille (das mais reputadas firmas europeias de engenharia da época). O projecto previu onze tramos metálicos assentes sobre robustos pilares de alvenaria implantados no leito do Tejo. Os trabalhos iniciaram-se em 1906, mas a montagem da estrutura metálica decorreu sobretudo entre 1908 e 1909.

A imagem mostra precisamente essa fase. Sobre o estrado provisório (de madeira), utilizado pelos operários durante a montagem, vários homens observam o avanço da estrutura. A ponte ainda está incompleta, apenas com os primeiros tramos metálicos colocados. Este enquadramento permite compreender a escala da obra e a complexidade da montagem, numa época em que todos os elementos metálicos eram içados e rebitados manualmente.

No cartão onde está colada a albumina lê-se "Pedro Gomez de Carvalho – photo amateur – Gollegã". As legendas – Pont sur le Tage, Longueur 756 mètres, à Chamusca (Portugal) –, sugerem igualmente a ligação ao ambiente internacional da empreitada, dirigida por engenheiros franceses.

Esta fotografia integra um pequeno conjunto que documenta diferentes fases da construção, incluindo pilares, montagem da estrutura metálica, retratos dos operários e instalações do estaleiro. Testemunhos de excepcional valor histórico, não apenas pela raridade, mas também por conservarem a memória dos homens e das técnicas que deram origem a uma das mais emblemáticas pontes portuguesas do início do século XX.





domingo, julho 5

EMÍLIO BIEL

Emílio Biel nasceu na Alemanha em 1838 e fixou-se no Porto ainda jovem, tornando-se uma das figuras centrais da fotografia e da impressão ilustrada em Portugal. Fundou a célebre Casa Biel, oficina gráfica e fotográfica equipada com maquinaria moderna e iluminação eléctrica própria, algo raríssimo no país no final do século XIX. A partir das décadas de 1870 e 1880, produziu milhares de fotografias de monumentos, cidades, caminhos-de-ferro, tipos populares e paisagens portuguesas, muitas delas editadas em álbuns, postais e estereoscopias. 

Entre as suas obras mais importantes contam-se os registos da construção das linha férreas e o grande álbum ‘A Arte e a Natureza em Portugal’, publicado em fascículos entre 1900 e 1908. A Casa Biel tornou-se referência técnica e artística comparável às grandes oficinas europeias da época. Dominando a técnica da fototipia, publicou igualmente dezenas de fotografias de costumes em postal ilustrado. 

Quando começou a Primeira Grande Guerra, a sua origem alemã passou a ser vista com desconfiança, num ambiente cada vez mais hostil aos cidadãos germânicos. Biel morreu no Porto a 14 de Setembro de 1915, antes da entrada oficial de Portugal na guerra contra a Alemanha (em Março de 1916). Pouco depois da sua morte, os bens de muitos alemães residentes em Portugal foram apreendidos pelo Estado, e a Casa Biel acabou confiscada e dispersa. Parte do estúdio foi adquirida pelo fotógrafo Fernando Brütt, antigo colaborador da empresa, mas o vastíssimo arquivo de negativos, chapas e maquinaria perdeu-se em grande parte. 

O fim da Casa Biel marcou também o desaparecimento de um dos mais modernos centros de produção fotográfica e gráfica da península ibérica. Mas a obra permanece testemunho essencial do Portugal oitocentista e da modernização industrial do início do século XX.








Biel fotografado
por Carlos Relvas





O NIASSA E A GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Após a queda de Badajoz, a 14 de Agosto de 1936, milhares de republicanos espanhóis procuraram refúgio em Portugal, sobretudo através da fro...