domingo, agosto 9

ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL




Agosto de 1936. Quando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coronel catalão de 60 anos chamado Ildefonso Puigdengolas y Ponce de León. O seu nome quase desapareceu da memória da Guerra Civil de Espanha, eclipsado por figuras como Miaja, Líster ou o próprio Yagüe. No entanto, durante algumas semanas, Puigdengolas foi considerado um dos principais defensores da República.

Nascido em Figueres, na Catalunha, em 1876, fizera carreira no Exército e no Corpo de Segurança. Combatera em Cuba e em Marrocos, participara na repressão da tentativa golpista de Sanjurjo em 1932 e era conhecido pelas suas convicções republicanas. Quando rebentou a Guerra Civil, encontrava-se na reserva, mas apresentou-se imediatamente ao Governo, contribuindo para manter Alcalá de Henares e Guadalajara do lado republicano. Poucos dias depois, foi enviado para Badajoz.

A defesa da cidade era praticamente impossível. Puigdengolas dispunha de forças mal armadas e pouco treinadas para enfrentar as tropas africanas de Yagüe, consideradas as mais agressivas do Exército espanhol. Apesar disso, resistiu até ao limite. Ferido durante os combates, assistiu ao colapso da defesa em 14 de Agosto de 1936 e conseguiu escapar para Portugal juntamente com outros militares e dirigentes republicanos, entre eles o governador civil de Badajoz, Miguel Granados Ruiz.

O coronel foi internado pelas autoridades portuguesas e passou por Elvas e Caxias, onde escreveu um relato da batalha de Badajoz que constitui hoje uma das fontes fundamentais para o estudo daqueles acontecimentos. Finalmente, em 10 de Outubro de 1936, embarcou em Lisboa no paquete Niassa, integrado no grupo de 1 445 refugiados espanhóis enviados pelo Estado português para Tarragona. A chegada esteve prestes a terminar em confronto armado, quando milícias republicanas tentaram revistar o navio, suspeitando que escondia nacionalistas.

Ao desembarcar em Espanha, Puigdengolas recusou permanecer na retaguarda. Voltou imediatamente ao serviço activo e assumiu novo comando na frente de Madrid. O jornalista Mário Neves, do Diário de Lisboa, acompanhando a sua chegada a Tarragona, chamou-lhe significativamente «o herói da resistência de Badajoz», testemunhando o prestígio de que então gozava entre os defensores da República.

A sua história terminaria poucos dias depois. No final de Outubro de 1936, durante os combates na zona de Parla, procurou impedir a retirada desordenada de alguns milicianos republicanos. Segundo a versão hoje mais aceite, foi morto pelos próprios homens que tentava fazer regressar ao combate. Tinha 60 anos.

A sua morte prematura e a derrota da República contribuíram para que o seu nome fosse sendo esquecido. A propaganda franquista preferiu transformá-lo no responsável pela perda de Badajoz; a memória republicana acabou por privilegiar outros comandantes. No entanto, historiadores como Paul Preston consideram que Puigdengolas enfrentou uma missão praticamente impossível, dispondo de escassos meios perante um inimigo muito superior. A sua passagem por Portugal e a viagem no Niassa fazem dele uma das figuras mais singulares da ligação portuguesa à Guerra Civil de Espanha: um militar republicano que encontrou refúgio temporário em território português antes de regressar voluntariamente ao combate, onde perderia a vida poucas semanas mais tarde.


Marina Tavares Dias



Ildefonso Puigdengolas: o herói esquecido de
Badajoz que encontrou refúgio em Portugal




Yague fotografado pelo jornal 'O Século'

Reportagem sobre o massacre de Badajoz 

na revista portuguesa 'Ilustração'

As ruas de Badajoz fotografadas para 'O Século'

A literatura sobre a Guerra Civil de Espanha
continua a dar destaque ao massacre de Badajoz


A Imprensa internacional fez eco dos massacres


Tropas franquistas após a conquista de Badajoz

A Praça de Touros de Badajoz, onde foram
executadas dezenas de pessoas







terça-feira, agosto 4

OTTLA KAFKA


Há duas fotografias que parecem pertencer ao mesmo dia. Numa, Franz Kafka e a irmã Ottla estão à porta da Oppelt-Haus, na Staroměstské Náměstí, a Praça da Cidade Velha de Praga, onde a família vivia desde 1913. Noutra, Ottla surge sozinha, com o mesmo vestido escuro de gola branca e o mesmo penteado, provavelmente a poucos metros dali, junto do monumento a Jan Hus. Esta segunda fotografia permite até corrigir a data habitualmente atribuída à primeira: o monumento só foi erguido em 1915. É uma pequena sequência familiar numa praça que Kafka conhecia intimamente e que, como grande parte da Praga da sua infância, estava então a mudar de rosto.

Ottilie Kafka, carinhosamente chamada Ottla, nascera em Praga a 29 de Outubro de 1892. Era a mais nova das três irmãs de Franz e, de longe, aquela de quem ele era mais próximo. Tinha também uma independência que faltava ao irmão: enfrentou o autoritário Hermann Kafka, quis trabalhar na agricultura e, durante a guerra, tomou conta de uma propriedade rural em Zürau, hoje Siřem. Foi aí que Franz se refugiou junto dela em 1917, depois de se manifestar a tuberculose. Antes disso, fora também Ottla quem lhe cedera a pequena casa com o número 22 da Rua dos Ourives (dentro da cerca do castelo), onde ele procurava silêncio para escrever.

Em 1920 casou, contra a vontade do pai, com Josef David, checo e católico. Tiveram duas filhas, Věra e Helena. O casamento acabou por ser, durante algum tempo, uma protecção contra as leis raciais nazis. Quando Ottla se divorciou, perdeu-a. As irmãs, Elli e Valli, já tinham sido deportadas. A três de Agosto de 1942, Ottla foi enviada para Terezín.

Ali trabalhou com crianças. Em 1943 chegaram ao campo cerca de 1200 crianças judias, provenientes de Białystok e mantidas em isolamento. Quando, em Outubro, receberam ordem de partir, Ottla ofereceu-se para as acompanhar. Saiu de Terezín a cinco de Outubro de 1943. Dois dias depois, o grupo chegou a Auschwitz-Birkenau. As crianças e os adultos que as acompanhavam não foram registados como prisioneiros: foram directamente assassinados nas câmaras de gás.

Ottla tinha cinquenta anos. Não ficou corpo nem sepultura. Na campa de Franz Kafka e dos pais, no Novo Cemitério Judaico de Praga, uma pequena placa recorda as três irmãs assassinadas. É curioso voltar àquelas fotografias da praça. Franz morreria em 1924 e nunca conheceria o fim de Ottla e o massacre dos judeus de Praga. Para a posteridade, estão ambos ali, jovens, sorridentes, diante da casa familiar, como se aquela Praga tranquila fosse durar para sempre.


Marina Tavares Dias









ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...