Há qualquer coisa de extraordinário em podermos chamar pelo nome uma mulher que, há quase setecentos anos, estava sentada numa oficina de Paris, de pincel na mão, a pintar os livros que hoje vemos fechados em vitrines de grandes bibliotecas.
Jeanne de Montbaston, ou Jehanne de Montbaston, viveu no século XIV. Não se sabe quando nasceu, nem onde, nem sequer o nome de família antes do casamento. Sabe-se muito mais acerca do marido porque, como tantas vezes acontece, foi ele quem primeiro ficou citado nos documentos. Chamava-se Richard de Montbaston e era originário da diocese de Lisieux, na Normandia. Em 1338, encontramo-lo já estabelecido em Paris como ‘libraire’, ligado à Universidade. Richard e Jeanne trabalhavam na Rue Neuve-Notre-Dame, na Île de la Cité, uma artéria que começava diante da catedral de Notre-Dame e constituía um dos grandes centros do comércio europeu do livro.
Mas uma ‘librairie’ do século XIV não era uma ‘livraria’ moderna. Funcionava simultaneamente como oficina, estabelecimento comercial e ponto de coordenação de diferentes ofícios. Obtinha pergaminho, contratava ou organizava copistas, preparava os cadernos, escrevia o texto, rubricava-o, deixava espaços para as iniciais e miniaturas, iluminava, dourava e finalmente encadernava.
Richard e Jeanne pertenciam, portanto, à indústria do livro de uma das maiores cidades universitárias da Europa.
Há prova da existência física da oficina. Em 1348, Richard fez inserir uma espécie de anúncio, ou marca de fabricante, numa cópia da ‘Légende Dorée’ (‘Legenda Áurea’, BNF, ‘Français 241’). O texto declara-o: «Richard de Montbaston libraire demourant à Paris en la rue Neuve Nostre Dame…»
É quase um endereço comercial.
Paris, Rue Neuve-Notre-Dame. Richard de Montbaston, livreiro. Jeanne estava ali, mas não sabemos quando casaram. Também não sabemos com segurança onde terá aprendido a iluminar manuscritos. Pode ter aprendido no meio familiar antes do casamento ou na própria oficina. O que sabemos é que não era apenas a mulher que ajudava o marido: um documento posterior dá-lhe inequivocamente essa profissão.
O casal especializou-se na produção de manuscritos em francês. Entre os livros que passaram pelas mãos da oficina encontrava-se um dos maiores êxitos literários da Idade Média: o ‘Roman de la Rose’, começado no século XIII por Guillaume de Lorris e continuado por Jean de Meun. Richard e Mary Rouse, no monumental ‘Manuscripts and their Makers: Commercial Book Producers in Medieval Paris, 1200–1500’ (edição de 2000), reconstruíram a actividade dos Montbaston e procuraram separar estilisticamente as mãos de Richard e de Jeanne.
Essa atribuição é hoje utilizada por quase todas as instituições. Um ‘Roman de la Rose' feito em Paris cerca de 1340 (hoje na Morgan Library, MS M.503), tem iluminuras atribuídas a Jeanne, seguindo os Rouse. Outro manuscrito, (no Walters Art Museum, W.143) também lhe é atribuído. Sobretudo, há o extraordinário exemplar do ‘Roman de la Rose’ (segundo quartel do século XIV, Paris, Bibliothèque Nationale de France; français 25526).
A base ‘Mandragore' (da própria BNF) atribui numerosas unidades de decoração especificamente a Jeanne de Montbaston. É aqui que a artista se torna quase fisicamente ‘visível’. No fólio 77v, aparecem, na margem inferior, um homem e uma mulher a trabalhar separadamente à mesa, na manufactura do manuscrito.
Os Rouse interpretam-nos como a representação da oficina dos próprios Montbaston. A cena mostra exactamente o modelo de empresa familiar em que um homem e uma mulher participavam na produção dos livros. Portanto, talvez estejamos a olhar para um desenho de Jeanne a trabalhar.
O livro não está apenas ‘ilustrado’. As margens vazias são povoadas por uma segunda vida: aves, animais, híbridos, religiosos, paródias, cenas eróticas e pequenas histórias que parecem conversar, e por vezes discutir, com o poema.
Numa das páginas, uma freira colhe frutos que são falos e mete-os num cesto. Noutras margens, religiosos envolvem-se em paródias sexuais. A própria ficha da BNF identifica os elementos da imagem como «chardonneret, hybride, massue, moniale, oiseau, parodie, phallus». E atribui aquela unidade decorativa à mão artística identificada pela historiografia como Jeanne de Montbaston.
Em 1353, finalmente, Jeanne aparece pelo seu próprio nome. Richard morreu antes de 1353. A oficina não desapareceu, porque a viúva tomou conta dela. E é precisamente por ter ficado viúva que uma mulher (que provavelmente já trabalhava há muitos anos) se tornou subitamente visível na documentação administrativa. Em Julho de 1353, Jeanne presta juramento perante a Universidade de Paris. O documento chama-lhe ‘Illuminatrix libri jurata universitatis’. Ou seja, iluminadora de livros juramentada pela Universidade.
É o título mais importante da biografia. Não a «mulher de um iluminador», não a «viúva de um livreiro». Era ‘illuminatrix’ profissional, reconhecida pelo organismo que regulamentava grande parte da produção e comércio de livros do mundo universitário medieval.
Não se sabe qual o ano da sua morte. As datas «1320-1370», que aparecem em algumas páginas modernas, são aproximações não comprovadas. Em 1353 ainda estaria viva, profissionalmente à frente da actividade livreira. O IRHT dá ao ‘conjunto Montbaston’ o período documentalmente atestado de 1338 a 1353, enquanto ‘Biblissima’ descreve Jeanne como iluminadora e livreira activa na Paris de 1353.
Uma mulher que só se tornou visível quando ficou viúva.
É talvez isto que torna Jeanne de Montbaston tão interessante.
Durante os anos em que Richard aparece nos documentos como ‘libraire’, Jeanne estava decerto sentada a poucos passos dele. Todos os dias a preparar pigmentos, a desenhar, pintar e talvez a ensinar aprendizes. Mas a documentação medieval não julgou necessário dizer que ela existia.
Morre o marido e, de repente, o arquivo necessita de um nome: ‘Paris, Julho de 1353, Jeanne de Montbaston, illuminatrix’. Sete séculos depois, podemos abrir um manuscrito feito naquela oficina e seguir os traços dela. Figuras de contorno fino, panejamentos, pequenos rostos, pássaros pousados nas ramagens das margens e aquelas extraordinárias brincadeiras obscenas que fazem do chamado ‘Français 25526’ um livro tão vivo.
É uma biografia pequeníssima em documentos e enorme em imagens: de Jeanne quase não ficaram palavras. Ficaram os seus desenhos.
Richard e Jeanne de Montbaston trabalham
na iluminação de manuscritos.
Estão representados diante das respectivas escrivaninhas,
com folhas já executadas
suspensas atrás de cada um
(ilustração do ‘Roman de la Rose’, Paris,
segundo quartel do século XIV.
Original na Bibliothèque Nationale de France,
ms. Français 25526, f. 77v).
As figuras são tradicionalmente
identificadas com o casal de iluminadores
responsável pela oficina parisiense dos Montbaston
Duas religiosas numa cena satírica. 'Roman de la Rose’,
Paris, segundo quartel do século XIV.
Iluminura atribuída a Jeanne de Montbaston
(Bibliothèque Nationale de France)
Religiosos no acto sexual
Iluminura atribuída a Jeanne de Montbaston
(Bibliothèque Nationale de France)
Monge entrega pénis a freira
Iluminura atribuída a Jeanne de Montbaston
(Bibliothèque Nationale de France)