quinta-feira, março 26

A BONECA DE 1919

Boneca de ‘composition’, com corpo de pano e traje “chinês”. Foi trazida de Nova Iorque pelo meu avô, em 1919. Ele hospedara-se no antigo Waldorf-Astoria, então situado na Quinta Avenida. Na loja do piso térreo comprou brinquedos para os filhos. Para a pequena Manuela, com dois anos nessa altura, escolheu a boneca. 

Depois, a chinesinha americana veio na mala de porão, atravessando o Atlântico entre os livros ilustrados comprados para os filhos mais velhos. Pequenos sinais de um mundo vasto, levados para a casa da Avenida Almirante Reis.

Carita ao gosto da época: lisa e serena, olhos escuros pintados, cabelo com franja e volume no topo, penteado estilizado. A cabeça destas bonecas era ‘composition’ (mistura de serrim e cola) típica do início do século XX. O corpo, mais flexível, de tecido, com braços e mãos amarrados. O traje de inspiração oriental não se pretendia fiel à tradição chinesa. Era a interpretação ocidental, pensada para evocar o distante e o exótico.

A chinezinha nunca teve nome. Foi usada intensamente. Passou de mão em mão (eram muitas irmãs), acompanhou brincadeiras, foi vestida, desvestida, transportada, talvez embalada. Com o tempo, perdeu uma perna — não por descuido, mas por uso continuado. Essa ausência visível ficou parte da sua história: marca física de uma infância partilhada.

Ao contrário de muitas bonecas semelhantes que sobreviveram intactas em vitrinas ou coleções, esta viveu plenamente o seu destino. Não permaneceu objecto, transformou-se em presença. Era o meu fascínio infantil, aquela boneca em casa da tia. Um dia, fotografei-a ao lado da sua dona já idosa: raro testemunho de continuidade familiar. Entre a viagem transatlântica e essa imagem final tinham já passado quase nove décadas. A boneca permaneceu. Mais do que um brinquedo, é fragmento do tempo: Nova Iorque – casa portuguesa – infância – memória. 

Não sei onde pára agora, mas costumo sonhar com ela. Talvez um dia me leve, nesses sonhos, até ao Waldorf-Astoria que o meu avô conheceu. De regresso a uma Nova Iorque estilo ‘Grande Gatsby’. E a um hotel de luxo anterior ao Empire State Building.


Marina Tavares Dias 





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