quinta-feira, abril 16

O REI E A CORISTA

Aqui está a actriz e dançarina Gaby Deslys no início do século XX — a mesma que, em breve, faria correr tinta em toda a Europa ao envolver-se com o jovem rei português D. Manuel II. A legenda “Théâtre Marigny” fixa um enquadramento: o palco dos Champs-Élysées, centro do ‘espectáculo leve’ da Belle Époque parisiense, que era um misto de revista, opereta e número de dança. Território de impacto visual, de elegância, de modernidade e de boémia.

O retrato é assinado pelo fotógrafo Stanisław Julian Ignacy Ostroróg, sob o nome de estúdio “Waléry, Paris”. Sem paralelo entre editores de imagens mais industriais, Waléry pertence a uma linhagem de retratistas de maior ambição estética. Vê-se na composição sóbria da imagem: figura inteira, fundo neutro raro na época, atenção ao gesto e ao equilíbrio do corpo. O figurino, pagem com gola de renda e chapéu largo, é típico do travesti feminino da revista musical.

Não é apenas um retrato: foi nesse tempo, também, instrumento de promoção. Transformadas em postais ilustrados, estas fotografias circularam em larga escala, fixando a imagem da actriz junto do público e consolidando a sua notoriedade. No caso de Deslys, a ascensão à fama coincide com o momento em que se tornou tema de todas as conversas mais ou menos secretas em Portugal. 

Em finais de 1909, em Paris, Gaby conheceu o jovem rei D. Manuel II. A ligação, rapidamente transformada em relação amorosa, foi motivo de colunas, artigos e comentários da imprensa internacional. Um escândalo à medida do conservadorismo da época. Falou-se da ida dela para o Palácio das Necessidades, de ofertas de jóias muito valiosas, de férias comuns no hotel do Bussaco.

Entre o palco do Marigny e os salões do “tout-Paris”, Gaby Deslys encarna a figura da ‘vedette’ francesa moderna, no seu esplendor de 1910. É simultaneamente artista, celebridade e protagonista real. A sua imagem ilustra uma narrativa que ultrapassou o teatro e entrou na História.



















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