terça-feira, maio 12

UM CIGARRO PARA O SOLDADO

A fotografia mostra um jovem militar português em uniforme tropical, sorridente, cigarro na mão, pose cuidadosamente construída para transmitir confiança, juventude e camaradagem. 

Depois, o retrato surge reproduzido num anúncio da campanha “Um cigarro, o Amigo Certo”, promovida em 1961 pelo jornal ‘O Século’ em colaboração com o Movimento Nacional Feminino (criado por Cecília Supico Pinto logo após o início da Guerra Colonial em Angola). A campanha destinava-se a oferecer cigarros aos soldados mobilizados em África. O cigarro surgia como símbolo afectivo: pequeno conforto quotidiano, partilha entre camaradas, pausa de descanso e elo imaginário entre a metrópole e o ultramar. O slogan tinha a eficácia muito própria da publicidade da época, transformando o objecto banal num “amigo certo” do soldado.

Campanha e imagem impressionam agora pelo contraste histórico entretanto adquirido. Aquilo que era visto como patriotismo e solidariedade seria actualmente impensável como campanha pública: propaganda colonial associada à promoção indirecta do tabaco. Mas no início dos anos 60 o cigarro fazia parte do imaginário masculino ‘moderno’ e aparecia constantemente ligado ao cinema, à aventura, à vida militar e à ideia de resistência física. 

O Movimento Nacional Feminino explorou precisamente essa linguagem. A fotografia original, muito mais nítida que a reprodução em anúncio, revela uma construção cuidada: o soldado jovem, saudável e fotogénico, iluminado quase como estrela de cinema, figuante optimista de uma guerra distante. Era o oposto da dureza real do conflito que, neste ano de 61, começava a marcar para sempre uma geração de portugueses.








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