segunda-feira, julho 27

O CASAMENTO DA RAPOSA





Ontem de manhã, chovia e fazia sol. Quando a chuva cai enquanto o sol continua a brilhar, a tradição portuguesa diz que é "casamento de raposa". Expressão transmitida de geração em geração e que faz parte do nosso património oral, sendo uma das muitas formas de explicar um fenómeno meteorológico raro e contraditório através da imaginação popular. Manhoso como as raposas.

A associação entre a raposa e a chuva com sol não é exclusivamente portuguesa. Encontra-se na Galiza, no País Basco, em Itália e, sobretudo, no Japão, onde o misterioso "casamento da raposa" (kitsune no yomeiri) pertence ao imaginário tradicional há séculos.

Foi precisamente esse provérbio japonês que inspirou um dos episódios mais conhecidos do filme "Sonhos" (1990), de Akira Kurosawa. Nele, um menino surpreende a misteriosa procissão do casamento das raposas durante uma chuvada com sol, entrando num mundo onde natureza e surreal se confundem.

A mesma crença popular atravessou continentes e culturas, mantendo viva a imagem fantástica do casamento das raposas matreiras e enfeitadas.







segunda-feira, julho 20

O GENERAL QUE VEIO PARA PORTUGAL PREPARAR A GUERRA DE ESPANHA



Há exactamente 90 anos, um avião caiu em Cascais e mudou a história de Espanha.

Quando a Frente Popular venceu as eleições espanholas de Fevereiro de 1936, José Sanjurjo vivia havia quase dois anos no Estoril. Exilara-se em Portugal depois do fracasso da "Sanjurjada", a tentativa de golpe militar de Agosto de 1932 contra a República. Condenado inicialmente à morte, viu a pena ser comutada e acabou por instalar-se na então tranquila costa do Estoril, primeiro no Hotel Miramar e depois na Vila Leocádia, na Avenida Sabóia.

Longe de representar um afastamento da política, o exílio português transformou-se no centro das suas actividades conspirativas. Pela casa do Estoril passaram alguns dos principais dirigentes da direita espanhola, entre eles José Calvo Sotelo, Antonio Goicoechea e Gil Robles. Era ali que se reuniam militares monárquicos, carlistas e políticos que preparavam o derrube da República.

Embora o verdadeiro organizador da conspiração fosse o general Emilio Mola, Sanjurjo era reconhecido por todos como o futuro chefe do movimento. Franco, então comandante militar das Canárias, não ocupava ainda essa posição. O plano previa que, uma vez iniciada a revolta militar em Marrocos, Sanjurjo voasse de Portugal para Burgos e assumisse a chefia suprema dos nacionalistas.

Foi precisamente isso que tentou fazer na tarde de 20 de Julho de 1936. O pequeno De Havilland Puss Moth, pilotado por Juan Antonio Ansaldo, levantou voo da Quinta da Marinha, em Cascais, mas despenhou-se poucos segundos depois. Sanjurjo morreu no acidente; o seu corpo ficou carbonizado entre os destroços do aparelho. A morte privou a insurreição do homem que todos reconheciam como líder natural.

O historiador Paul Preston considera este um dos momentos decisivos da Guerra Civil. Sanjurjo era o general de maior prestígio entre os conspiradores e o candidato consensual à chefia do novo regime. A sua morte abriu um vazio de poder que Franco soube ocupar com extraordinária habilidade política. Nos meses seguintes, beneficiando também da morte de Mola em Junho de 1937, concentrou progressivamente todo o poder militar e político, tornando-se Generalíssimo e Chefe do Estado.

É impossível saber como teria evoluído a história de Espanha se Sanjurjo tivesse chegado vivo a Burgos. Mas uma coisa parece hoje segura: a queda do pequeno avião nos pinhais de Cascais alterou profundamente o rumo da Guerra Civil. Em certo sentido, foi em Portugal que se decidiu quem iria governar a Espanha durante quase quarenta anos.


Marina Tavares Dias




Sanjurjo na Quinta da Marinha
no dia 20 de Julho de 1936


Placa do monumento a Sanjurjo em Cascais



Destroços do avião
no dia 20 de Julho de 1936
(Arquivo do jornal 'O Século')






terça-feira, julho 14

A PONTE DA CHAMUSCA

A fotografia documenta a construção da ponte metálica sobre o rio Tejo, na Chamusca, inaugurada em 31 de Agosto de 1909. A obra veio substituir as antigas travessias em barcas (frequentemente interrompidas pelas cheias). Facilitando comunicações entre a Chamusca e a Golegã, foi um importante melhoramento para toda a região ribatejana.

Com cerca de 756 metros de comprimento – medida que surge inscrita na própria montagem fotográfica –, a ponte foi construída pela empresa francesa Fives-Lille (das mais reputadas firmas europeias de engenharia da época). O projecto previu onze tramos metálicos assentes sobre robustos pilares de alvenaria implantados no leito do Tejo. Os trabalhos iniciaram-se em 1906, mas a montagem da estrutura metálica decorreu sobretudo entre 1908 e 1909.

A imagem mostra precisamente essa fase. Sobre o estrado provisório (de madeira), utilizado pelos operários durante a montagem, vários homens observam o avanço da estrutura. A ponte ainda está incompleta, apenas com os primeiros tramos metálicos colocados. Este enquadramento permite compreender a escala da obra e a complexidade da montagem, numa época em que todos os elementos metálicos eram içados e rebitados manualmente.

No cartão onde está colada a albumina lê-se "Pedro Gomez de Carvalho – photo amateur – Gollegã". As legendas – Pont sur le Tage, Longueur 756 mètres, à Chamusca (Portugal) –, sugerem igualmente a ligação ao ambiente internacional da empreitada, dirigida por engenheiros franceses.

Esta fotografia integra um pequeno conjunto que documenta diferentes fases da construção, incluindo pilares, montagem da estrutura metálica, retratos dos operários e instalações do estaleiro. Testemunhos de excepcional valor histórico, não apenas pela raridade, mas também por conservarem a memória dos homens e das técnicas que deram origem a uma das mais emblemáticas pontes portuguesas do início do século XX.





domingo, julho 5

EMÍLIO BIEL

Emílio Biel nasceu na Alemanha em 1838 e fixou-se no Porto ainda jovem, tornando-se uma das figuras centrais da fotografia e da impressão ilustrada em Portugal. Fundou a célebre Casa Biel, oficina gráfica e fotográfica equipada com maquinaria moderna e iluminação eléctrica própria, algo raríssimo no país no final do século XIX. A partir das décadas de 1870 e 1880, produziu milhares de fotografias de monumentos, cidades, caminhos-de-ferro, tipos populares e paisagens portuguesas, muitas delas editadas em álbuns, postais e estereoscopias. 

Entre as suas obras mais importantes contam-se os registos da construção das linha férreas e o grande álbum ‘A Arte e a Natureza em Portugal’, publicado em fascículos entre 1900 e 1908. A Casa Biel tornou-se referência técnica e artística comparável às grandes oficinas europeias da época. Dominando a técnica da fototipia, publicou igualmente dezenas de fotografias de costumes em postal ilustrado. 

Quando começou a Primeira Grande Guerra, a sua origem alemã passou a ser vista com desconfiança, num ambiente cada vez mais hostil aos cidadãos germânicos. Biel morreu no Porto a 14 de Setembro de 1915, antes da entrada oficial de Portugal na guerra contra a Alemanha (em Março de 1916). Pouco depois da sua morte, os bens de muitos alemães residentes em Portugal foram apreendidos pelo Estado, e a Casa Biel acabou confiscada e dispersa. Parte do estúdio foi adquirida pelo fotógrafo Fernando Brütt, antigo colaborador da empresa, mas o vastíssimo arquivo de negativos, chapas e maquinaria perdeu-se em grande parte. 

O fim da Casa Biel marcou também o desaparecimento de um dos mais modernos centros de produção fotográfica e gráfica da península ibérica. Mas a obra permanece testemunho essencial do Portugal oitocentista e da modernização industrial do início do século XX.








Biel fotografado
por Carlos Relvas





quarta-feira, junho 24

APELES ESPANCA: ÍCARO EM LISBOA

Apeles Demóstenes da Rocha Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 10 de Março de 1897. Irmão de Florbela Espanca, oficial da Marinha, pintor amador e desportista, Apeles era recordado em Vila Viçosa e Campo Maior como um jovem bonito e carismático. Muitas décadas após a sua morte, as suas antigas parceiras de ténis ainda diziam que “todas as raparigas estavam apaixonadas por ele”.

Apeles tem presença transfigurada na literatura da irmã. No conto 'O Aviador', integrado num caderno manuscrito de narrativas (hoje dispersas), Florbela não traça um retrato biográfico. Cria personagem simbólica: o homem errante, sonhador e inquieto, atraído pela liberdade do voo e pela conquista do impossível. Alguém que deixa para trás “as algemas” da vida comum para subir em direcção ao céu: tal a admiração que a autora sentia pelo irmão.

Tragicamente, a ficção superaria a realidade. O jovem aviador morreu a 6 de Junho de 1927, durante um voo de treino do seu hidroavião Hanriot. Os recortes de Imprensa conservados pela família descrevem-no como “piloto já quasi feito” e “enthusiasta da aviação, estudioso, sabedor do seu mister”. O hidroavião que Apeles pilotava caiu no Tejo perante numerosas testemunhas. Seguiram-se buscas intensas com embarcações, mergulhadores e meios da Armada, mas o corpo nunca foi recuperado.

A morte do irmão constituiu um dos maiores desgostos da vida de Florbela Espanca. Três anos mais tarde, quando a poetisa morreu, a figura de Apeles já fazia parte da sua lenda íntima: irmão amado, aventureiro, aviador desaparecido nas águas. Entre realidade e literatura, a memória do belo Apeles permaneceu para sempre suspensa no tempo. Nesse espaço onde os homens, como escreveu Florbela, parecem ter asas.



Apeles fotografado
em Vila Viçosa pelo
pai, José Maria Espanca 
(1919)


sábado, junho 20

FILLON, FOTÓGRAFO DA MODA

Alfred Fillon (1825-1881) foi uma das figuras decisivas da fotografia portuguesa oitocentista. Nascido em França, em Roanne, exilou-se em Portugal durante o Segundo Império de Napoleão III. 

Recomendado por Victor Hugo a António Feliciano de Castilho, fixou-se primeiro no Porto, abrindo um estabelecimento fotográfico em 1857. Estabeleceu-se em Lisboa dois anos depois. 

O seu atelier da Rua das Chagas tornou-se rapidamente um dos preferidos pela aristocracia, pela burguesia e pela Casa Real. Fotografou reis, rainhas, príncipes, actores, escritores, políticos, membros da sociedade elegante. Foi dos primeiros fotógrafos a dominar plenamente a estética da carte-de-visite, cuja moda se espalhava pela Europa toda. O trabalho de Fillon distinguia-se pela iluminação cuidada, pela escolha da pose ideal e pelo acabamento luxuoso dos cartões.

Tornou-se fotógrafo oficial do Teatro Nacional de D. Maria II, retratando os actores mais célebres do romantismo português. Muitas dessas fotografias circulavam coladas em revistas ilustradas como ‘O Contemporâneo’ ou eram usadas para gravuras nas páginas de outras, como ‘O Occidente’.

Além do retrato de estúdio, Fillon realizou panorâmicas de Lisboa e pormenores de monumentos, sendo um dos pioneiros da fotografia documental urbana. Interessava-se pelas artes decorativas, pela reprodução de pinturas, esculturas e objectos artísticos, na época em que a fotografia começava a ser usada como instrumento de divulgação patrimonial. Viajou pela Europa para acompanhar os progressos técnicos e participou na Exposição Internacional do Porto de 1865. 

Entre 1868 e 1874 passou temporadas em Paris. O atelier mudou-se para a Rua Serpa Pinto, no Chiado (antiga casa Plessix), onde permaneceu até à morte do fotógrafo, em 1881. Após o falecimento de Fillon, o estúdio foi assumido por Augusto Bobone, que lhe deu continuidade como referência da fotografia lisboeta até ao início do século XX.

Alfred Fillon é considerado um dos grandes nomes da fotografia portuguesa de oitocentos. Não só pelo valor artístico dos seus retratos, mas porque fixou visualmente toda uma geração da sociedade lisboeta: família real, actores, escritores e figuras mundanas. Nos seus trajes elegantes, perante a sua câmara, todos eles posaram para o futuro.




A actriz 
Emília das Neves
fotografada no
atelier de Fillon









terça-feira, junho 16

ALEXANDRE HERCULANO

 «Um dia em que atravessava da Lisboa arabe para a Lisboa romana, da Alfama para o Castello, não sei como passei pelo sitio onde existiu o convento dos Bons Homens de Villar, ou Conegos do Evangelista, e parei a examiná-lo. O meu exame foi demorado a consciencioso, como se costuma dizer nos dous logares onde raro entra a consciencia — nas camaras legislativas e na imprensa politica. Todas as indagações que fiz para descubrir algum vestigio do edificio primitivo, cuja origem o leitor verá no primeiro capitulo desta historia, foram, porém, baldadas: os Loios (assim lhes chamava o povo) tinham transformado o antigo collegio do bispo D. Domingos Jardo em sumptuoso convento, de cuja grandeza se pode formar cabal idéa lançando os olhos para a estampa de Lisboa publicada na Viagem a Portugal de Philippe II, escripta pelo chronista Lavanha. Veio depois o terremoto e converteu tudo em ruinas. Nestas se aninhou, passado meio seculo, a Guarda Real de Policia, e, por morte desta, a sua suceessora e herdeira a Guarda Municipal.

Triste por ter perdido assim inutilmente o tempo e o trabalho, ia a seguir meu caminho, quando me lembrei de um velho manuscripto que lêra, e que falava miudamente de certo successo que Fernão Lopes transmitirá á posteridade na chronica de D. João I. Este successo terrivel, cujo desfecho apenas narra o chronista, e que vinha explicado n'aquella escriptura inedita com todas as suas causas e circumstancias, está ligado com a historia desse colegio do bispo de Lisbpa. Passou-me então pela mente fazer uma desfeita aos loios e ao terremoto, e dar de novo vida áquillo que hoje é só um nome. Procurei colligir as minhas recordações, e quando voltei a casa tinha pouco mais ou menos delineado e disposto os materiaes que constituem o amago e substancia da narração seguinte.

É o que resta a quem é pobre. — Não pôde tirar os monumentos das garras dos politicos; mas tem liberdade plena de reconstruir e povoar aquelles que já não existem.»


Alexandre Herculano,  'O Monge de Cister'.






Alexandre Herculano em Vale de Lobos, sentado numa das cestas da apanha de azeitona. A imagem, quase sempre reproduzida em gravura, é fotográfica, a partir do daguerreótipo original, aqui impresso em fototipia pela «Illustração Portugueza»). Existe em carte-de-visite e em vista estereoscópica «falsa».




ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...