Entrevistei Jorge Palma para o suplemento Som 80 do diário Portugal Hoje. A entrevista foi publicada a 5 de Julho de 1980, quando ele acabara de fazer 30 anos. Eu estava recém-saída da adolescência. Nenhum de nós tinha dinheiro. Ambos tínhamos opinião própria. Lutei muito para que o director desse destaque à prosa. Foi a primeira entrevista extensa da carreira do Jorge e ocupou duas páginas, com chamada na primeira página do jornal — circunstância que o deixou particularmente feliz. Falávamos quotidianamente no Rossio, onde tocava na rua. Mais tarde (ele estava num quarto na pensão Ninho das Águias) discutimos música, independência, escolhas pessoais, desigualdade e liberdade. Quarenta e seis anos depois, recupero isto como foi publicado, conservando linguagem e opiniões daquele momento. Vale o que vale, quando poucos o conheciam.
JORGE PALMA A «SOM 80»
O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais
Marina Dias
São quase seis da tarde. As pessoas passam depressa na direcção do Rossio, indiferentes ao músico franzino que afina as cordas da viola, distraidamente encostado ao muro. Com o casaco e a mala pelo chão, ele arranca os primeiros acordes da música que hoje, como frequentemente, traz consigo pela rua. Aos poucos, o gelo vai derretendo. Há gente que pára e fica a ouvir. Um espectáculo simples está a ser feito ali. Nasce o burburinho entre os transeuntes e a conversa no meio dos espectadores:
— É ele.
— Não sei, não tenho segundo canal.
— É mais novo.
— Conheço esta música.
Aparentemente distanciado do alvo das atenções, o guitarrista continua, canção após canção, sem um baixar na voz, sem um tremer de mãos. Raras vezes olha à sua volta. Quando o faz, o seu sorriso é quente e muito rápido. Algumas mulheres de meia idade aproximam-se mesmo dele e resolvem a questão nascida entre si:
— Você não é o Jorge Palma?
O músico ri e acena afirmativamente. Mas logo volta à canção:
— O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais.
Jorge Palma — compositor, poeta e cantor, vindo de uma geração de gente que, em meados da década de sessenta, acordava para um novo estilo de vivência e uma outra maneira de encarar o mundo. Bastante firme nas suas convicções e no desejo de criar uma realidade diferente para a música portuguesa, nunca trocou definitivamente o contacto diário e directo com o público, nas ruas, pela calma dos estúdios de gravação. Transposto para os seus poemas, o abandono exercido pela comunidade sobre o indivíduo menos integrado cria um estilo próprio de canções. E a música, oscilante na fronteira do «bluegrass» com um certo tipo de «folk» familiar a todos os compositores de intervenção, conta com arranjos escolhidos dentro do que é (ainda) uma novidade por estes lados da Europa.
Como Woody Guthrie ou o próprio Dylan, Jorge Palma recolheu da sua experiência como músico muito do que agora nos conta em cada disco. Essa experiência constitui um contributo a que ele já chamou «Qualquer coisa para a música»: uma oferta importante tendo em vista o «rock» que se faz neste país. Especialmente se levarmos em conta que (também) por cá muitos compositores, ao contrário de oferecerem algo à cultura musical, têm tirado dela a sua vida e o seu sustento, nem sempre em prol da qualidade.
— Passei a minha infância praticamente fechado em casa. Comecei a aprender clássico aos quatro anos. Só me voltei para o «rock» quando, por volta dos 14, comecei a ouvir os Beatles e os Stones e vi que era um estilo mais de acordo com aquilo que eu procurava. Estive em vários grupos ainda no tempo do liceu, mas nunca gravámos. Acho que o início da minha carreira foi realmente com o Sindicato.
O Sindicato, um agrupamento de «jazz-rock» nascido nos finais dos anos sessenta, contava com a participação de músicos como Rão Kyao, Vítor Mamede, Rui Cardoso e Ricardo Levi.
— Nessa altura, queríamos um som estilo Blood, Sweat & Tears e Chicago. Precisávamos de um trompete e de um trombone, por isso fomos buscar músicos à Banda da Aviação e à Banda da Marinha. Embora deslocados à partida, eles davam o seu melhor... Gravámos dois instrumentais, num LP com êxitos do Paulo de Carvalho, para a Philips. Foi a primeira experiência de estúdio que tivemos juntos. Depois disso, houve um «single» chamado «Sindi-Blue Suede Shoes-Cato», cujo lado B foi escrito por mim, pelo Ricardo e pelo Vítor. Estivemos no Festival de Vilar de Mouros e depois separámo-nos. Éramos muita gente e havia pouco dinheiro.
Após o primeiro «single» a solo, «Nine Billion Names of God», e as primeiras experiências para gravar em português, Jorge Palma partiu como exilado político para a Dinamarca, recusando assim a mobilização para o serviço militar. Voltou a Portugal em Agosto de 1974 e gravou o álbum «Viagem na Palma da Mão». Em 1977 viria a publicar outro LP, a que deu o título genérico de «Té Já». Depois disso, viajou pelo resto da Europa, onde escreveu o material do seu disco mais recente, «Qualquer Coisa Pá Música», editado este ano.
«Cada um dos meus discos marca uma fase»
— Desde que voltaste a Portugal, no fim do ano passado, tens feito apresentações ao vivo (com bilhetes pagos)?
— Sim. Em bares, como o «Aguarela», e na Faculdade de Letras. Também fiz o suporte dos Pirates, no Pavilhão dos Belenenses. Geralmente, o Bando está comigo, mas já tenho tocado sozinho...
— Como surgiu a ideia da participação de vários músicos conhecidos no teu último álbum?
— Encontrei o Sérgio Godinho em Paris, por casualidade, e foi ele uma das pessoas que fez mais força para que eu voltasse para cá. A canção que canta comigo, «Na Terra dos Sonhos», tem algumas influências da própria música dele. Por isso, achei boa ideia pedir-lhe para participar. Os Sheiks tinham-me convidado para entrar no programa deles para a televisão, em Outubro; e foi nessa altura que surgiu a ideia da colaboração. Quanto aos outros, o João Heitor, o Rui Cardoso, o Zé Nabo, o Xico Zé, etc., são pessoas com quem sempre tenho mantido contacto.
— O teu último disco marca uma nova fase?
— Todos os meus discos marcam uma fase. O último é muito diferente do «Té Já» e o «Té Já» é muito diferente do «Viagem na Palma da Mão». A nível de letras, a nível de música e, até, de vivência. Na «Viagem na Palma da Mão», por exemplo, os arranjos são mais complicados, mas, por outro lado, fui eu quem tocou tudo, e estava a tocar viola um pouco mal nessa altura.
— Pensas voltar a gravar em inglês?
— Quando fiz o material do «Qualquer Coisa Pá Música», também escrevi algumas canções em inglês. Tenho temas para um LP em inglês, mas não faz muito sentido editá-lo em Portugal. Talvez o grave no estrangeiro ou inclua algumas dessas canções no meu próximo álbum em português.
— O que pensas do facto de o actual «rock» português ainda ter muitas influências do «rock» dos anos 60?
— É natural que seja mais comercial, pois já foi assimilado. O público tradicional talvez esteja mais aberto para esse tipo de música do que, por exemplo, para a «new-wave». A «new-wave» foi especificamente de encontro a uma camada mais jovem.
O «rock» parece individualista
— Hoje, o «rock» parece individualista. Na música e na poesia. Parece distanciado do tempo dos «objectivos universais». Será que os músicos diferentes se deixaram comprar?
— Acho que isso tem mais a ver com os próprios movimentos colectivos e com o sucesso que tiveram (quando há união, há muito mais força, é evidente). Toda aquela energia e alegria que saltavam de todos os trabalhos que eles realizavam (discos, filmes, concertos, passeios...), eram tão fortes, tão boas, que todos compravam e apoiavam, sem reservas. Então, alguns desses artistas tornaram-se muito famosos e ricos. Talvez começassem a considerar-se vedetas e é aí que começa o mal.
— É por isso que continuas a tocar na rua?
— Bem, o eu tocar na rua tem muitas razões. Gosto de manter um contacto directo com as pessoas. Outra das razões é que isso me proporciona uma liberdade de movimentos que não posso ter de nenhuma outra forma — toco onde quero e o que quero. O único problema que existe é a «ordem estabelecida».
— Mas um músico que toca na rua é tratado como um vulgar vendedor?
— Isso depende muito da maneira como te apresentas. Se o músico estiver com a consciência perfeitamente tranquila, com os olhos abertos e límpidos, a olhar as pessoas de frente e a fazer uma festa na rua, normalmente há tendência para haver tolerância pela parte da autoridade. Eu tenho encontrado essa tolerância em alturas e lugares em que outras pessoas, com o mesmo tipo de actividade, são aborrecidas pela polícia. Isso aconteceu-me muito em Paris e também na Suíça. Por cá já têm implicado comigo mas isso deriva até da maneira como os músicos portugueses acham desprestigiante tocar na rua.
— Não é assim no estrangeiro?
— Geralmente não. Em Paris cheguei a encontrar gente que gravava discos e tocava na rua. Inclusivamente, encontrei bons executantes clássicos a tocarem no metropolitano. Um deles era suficientemente bom para ser o primeiro violino da Sinfónica. Estudava no Conservatório e já tocava numa orquestra. Treinava sempre no «metro».
— Não se justificaria mais que isso acontecesse em Lisboa, visto que Lisboa é uma cidade onde existem menos clubes e iniciativas para mostrar ao público o que os artistas por cá estão a fazer?
— Eu acho que isso tem muito a ver com o facto dos próprios artistas assumirem as suas decisões e procurarem as próprias chances, aproveitando-as sempre que surjam. E tem também muito a ver com a mentalidade, que é produto da educação. As pessoas por cá raramente tomam decisões; raramente assumem responsabilidades. Desde crianças, são mantidas num aparte em que não decidem nada. Quando isso acontece, a criança torna-se adolescente, posteriormente adulta (com sérias reservas), e foram sempre os mais velhos a decidir por ela. De repente, descobrem-se com 25, 30 anos e seguem as vias tradicionais: casam sem conhecer o amor, vão trabalhar em algo que não as realiza e ficam aterrorizadas perante a ideia de tomar uma decisão em relação à sua vida. Acontece a todos os níveis, e a nível musical também.
«Escrevo sobre o que sinto e procuro o meu caminho»
— As pessoas têm medo de tomar a decisão de tocar na rua?
— Olha, eu toco na rua. Não tenho problema nenhum, não tenho vergonha nenhuma e acho que é uma coisa muito boa. Quando houver mais quatro ou cinco pessoas a fazer o mesmo que eu, daqui a algum tempo, muita gente é capaz de seguir o exemplo. No fundo, quem tomou a decisão fui eu e eles vêm na onda. Tocar na rua é possível, é giro, é viável e muito agradável. Era bom que as pessoas se dessem conta disso; mas não para seguir outros exemplos.
— Será que, por enquanto, o único caminho em Portugal é o chamado «Estilo Música Portuguesa»?
— Não é bem um «estilo» de música. Houve duas ou três pessoas que criaram um tipo de canções neste país e depois houve dezenas, centenas a imitá-lo. No fundo, é aparentemente mais fácil entrar nas calhas dos outros. E o público português normalmente não compra coisas que fujam ao habitual. Vê-se isso, até a nível de «rock»: as pessoas compram um disco quando vem lá de fora a notícia do seu sucesso. Elas não assumem verdadeiramente o seu «gostar».
— E quanto a ti?
— Quando escrevo uma coisa acho que seria uma fraude tentar apanhar migalhas do êxito doutra pessoa qualquer. Escrevo sobre o que sinto e procuro o meu próprio caminho. Sou permeável e tenho influências daqui e dali, mas utilizo-as também à minha maneira. E tens o caso do «bluegrass». Eu descobri o «bluegrass» e entusiasmei-me muito com esse estilo. Isso aconteceu durante a minha última estadia em certos pontos da Europa. O material do meu último disco foi escrito nessa altura.
Uma certa visão do mundo
— Os teus poemas também parecem ir de encontro a uma certa visão do mundo. Um estilo talvez diferente da poesia de intervenção, quando estritamente política...
— Espero poder ter sempre independência espiritual. Poder gostar do que escrevo. Mesmo quando falo da chamada «paixão», tem sempre a ver com momentos de euforia, em que realmente senti isso. A nível de palavras de ordem não as posso dar. Ninguém deve dizer às pessoas o que devem fazer.
— Achas que ninguém tem o direito de dizer às pessoas o que devem fazer?
— Os governos fazem-no. Mas, realmente, só classes privilegiadas é que estão lá. Não temos sapateiros nos governos. Não temos pescadores nos governos. As pessoas que estão lá são como águias a tratar dos problemas de toupeiras. Têm consciência de que esses problemas existem, mas todos eles lhes chegam tão de fora, tocam-lhes tão pouco, que não podem de modo nenhum senti-los. Por outro lado, se fôssemos formar um governo de peixeiros e sapateiros haveria problemas desde o início, porque as pessoas não estão preparadas para tomar decisões.
— És contra os privilégios?
— Acho bem que uma pessoa tenha direito às facilidades inerentes ao desenvolver do seu trabalho e a uma vida decente. Mas não há justiça, na medida em que existem pessoas a oferecer carros como presentes de aniversário, enquanto outras nem podem dar um boneco ao seu filho. Se a pessoa precisa de um carro para trabalhar, deve tê-lo. E quem não exerce um trabalho puramente físico deve também poder viver em paz, sem ter de procurar outra coisa para a qual não tenha vocação. É preciso que, no fundo, as pessoas se realizem, pois, se estamos cá todos, é porque o mundo é de todos. Mas como é que se vai pôr as pessoas a tomar conta das suas vidas?