Após a queda de Badajoz, a 14 de Agosto de 1936, milhares de republicanos espanhóis procuraram refúgio em Portugal, sobretudo através da fronteira alentejana. Muitos foram acolhidos provisoriamente em Campo Maior, Elvas e Barrancos, enquanto outros ficaram internados em quartéis, fortalezas e instalações improvisadas sob vigilância da PVDE. Entre eles encontravam-se figuras importantes da República, como o governador civil de Badajoz, Miguel Granados Ruiz, e o coronel Ildefonso Puigdengolas, comandante da defesa da cidade. Depois de semanas de negociações entre Lisboa e Madrid, o Governo português decidiu repatriar os refugiados para território republicano. Em 10 de Outubro de 1936, 1 445 espanhóis embarcaram em Lisboa no paquete Niassa, com destino a Tarragona.
O navio chegou ao porto catalão na manhã de 13 de Outubro, encontrando uma cidade em plena efervescência revolucionária. Os refugiados foram recebidos por milícias comunistas e anarquistas, que os saudaram com vivas à República e à revolução. No entanto, a chegada esteve prestes a transformar-se num grave incidente diplomático. Espalhou-se o boato de que o Niassa transportava nacionalistas escondidos e centenas de milicianos cercaram o navio, exigindo uma revista. O delegado português e o comandante recusaram terminantemente permitir a entrada de homens armados a bordo, invocando a soberania do navio português. Durante largos minutos, enquanto automóveis blindados, metralhadoras e até uma peça de artilharia eram posicionados no porto, receou-se um confronto armado. A tensão acabou por dissipar-se e o desembarque realizou-se sem violência.
Poucos dias depois, a imprensa portuguesa relatava o episódio como um momento de grande risco, sublinhando a firmeza das autoridades nacionais perante as exigências das milícias catalãs. O próprio relatório confidencial da PVDE reconhecia que a situação estivera perto de escapar ao controlo. O comandante recusou igualmente embarcar cerca de duzentos prisioneiros nacionalistas que se encontravam detidos noutro navio do porto, decisão que o responsável da polícia política lamentou, convencido de que muitos acabariam por ser executados.
Para a maioria dos passageiros, a viagem no Niassa não representou o fim do exílio, mas apenas o regresso à guerra. Muitos homens foram imediatamente incorporados no Exército republicano. O caso mais conhecido é o do coronel Ildefonso Puigdengolas (o herói catalão que tentara defender Badajoz contra a Coluna da Morte de Yagüe) que, depois de escapar à queda de Badajoz e de encontrar refúgio em Portugal, voltou ao combate poucos dias após desembarcar em Tarragona, morrendo na frente no final de Outubro de 1936. O episódio do Niassa permanece um dos momentos mais singulares da participação portuguesa na Guerra Civil de Espanha: uma operação humanitária e diplomática que colocou Portugal no centro de um conflito internacional e que, por breves instantes, esteve à beira de desencadear um confronto armado no porto de Tarragona.




