Agosto de 1936. Quando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coronel catalão de 60 anos chamado Ildefonso Puigdengolas y Ponce de León. O seu nome quase desapareceu da memória da Guerra Civil de Espanha, eclipsado por figuras como Miaja, Líster ou o próprio Yagüe. No entanto, durante algumas semanas, Puigdengolas foi considerado um dos principais defensores da República.
Nascido em Figueres, na Catalunha, em 1876, fizera carreira no Exército e no Corpo de Segurança. Combatera em Cuba e em Marrocos, participara na repressão da tentativa golpista de Sanjurjo em 1932 e era conhecido pelas suas convicções republicanas. Quando rebentou a Guerra Civil, encontrava-se na reserva, mas apresentou-se imediatamente ao Governo, contribuindo para manter Alcalá de Henares e Guadalajara do lado republicano. Poucos dias depois, foi enviado para Badajoz.
A defesa da cidade era praticamente impossível. Puigdengolas dispunha de forças mal armadas e pouco treinadas para enfrentar as tropas africanas de Yagüe, consideradas as mais agressivas do Exército espanhol. Apesar disso, resistiu até ao limite. Ferido durante os combates, assistiu ao colapso da defesa em 14 de Agosto de 1936 e conseguiu escapar para Portugal juntamente com outros militares e dirigentes republicanos, entre eles o governador civil de Badajoz, Miguel Granados Ruiz.
O coronel foi internado pelas autoridades portuguesas e passou por Elvas e Caxias, onde escreveu um relato da batalha de Badajoz que constitui hoje uma das fontes fundamentais para o estudo daqueles acontecimentos. Finalmente, em 10 de Outubro de 1936, embarcou em Lisboa no paquete Niassa, integrado no grupo de 1 445 refugiados espanhóis enviados pelo Estado português para Tarragona. A chegada esteve prestes a terminar em confronto armado, quando milícias republicanas tentaram revistar o navio, suspeitando que escondia nacionalistas.
Ao desembarcar em Espanha, Puigdengolas recusou permanecer na retaguarda. Voltou imediatamente ao serviço activo e assumiu novo comando na frente de Madrid. O jornalista Mário Neves, do Diário de Lisboa, acompanhando a sua chegada a Tarragona, chamou-lhe significativamente «o herói da resistência de Badajoz», testemunhando o prestígio de que então gozava entre os defensores da República.
A sua história terminaria poucos dias depois. No final de Outubro de 1936, durante os combates na zona de Parla, procurou impedir a retirada desordenada de alguns milicianos republicanos. Segundo a versão hoje mais aceite, foi morto pelos próprios homens que tentava fazer regressar ao combate. Tinha 60 anos.
A sua morte prematura e a derrota da República contribuíram para que o seu nome fosse sendo esquecido. A propaganda franquista preferiu transformá-lo no responsável pela perda de Badajoz; a memória republicana acabou por privilegiar outros comandantes. No entanto, historiadores como Paul Preston consideram que Puigdengolas enfrentou uma missão praticamente impossível, dispondo de escassos meios perante um inimigo muito superior. A sua passagem por Portugal e a viagem no Niassa fazem dele uma das figuras mais singulares da ligação portuguesa à Guerra Civil de Espanha: um militar republicano que encontrou refúgio temporário em território português antes de regressar voluntariamente ao combate, onde perderia a vida poucas semanas mais tarde.
Marina Tavares Dias























