sábado, maio 30

ANTEPASSADOS DA FOTOGRAFIA

Câmara escura com secretária e meia-tenda. Gravura do 'Dictionnaire Universel de Mathématiques et de Physique', de Alexandre Saverien, Paris, 1754.

Esta gravura representa uma das formas mais elaboradas e conceptualmente maduras da câmara escura no século XVIII: um dispositivo óptico integrado numa secretária de trabalho, complementado por uma meia-tenda de tecido escuro destinada a isolar o observador da luz exterior.

A estrutura combina um corpo em forma de caixa, colocado sobre uma mesa, com um sistema óptico interno composto por lente e espelho inclinado. A imagem do exterior é projectada horizontalmente sobre uma superfície plana, onde pode ser observada com nitidez. A meia-tenda, feita de pano espesso, cria um espaço escurecido no qual o operador se senta parcialmente, concentrando o olhar e eliminando reflexos indesejados.

Este tipo de câmara escura era utilizado sobretudo para desenho, topografia, arquitectura, cartografia, etc. Funcionava como mediador entre o mundo exterior e o gesto gráfico, permitindo transpor com exactidão perspectivas, proporções e contornos. 

A gravura revela também uma dimensão simbólica importante. O mundo exterior entra literalmente no interior doméstico, projectado sobre uma mesa onde pode ser medido, traçado e corrigido. Esta 'domesticação' da visão antecipa princípios fundamentais da fotografia: a caixa escura, o controlo rigoroso da luz, a separação entre observador e objecto observado e a confiança numa imagem mediada por um aparelho.

Em 1754, porém, a fixação da imagem ainda depende da mão humana. Onde mais tarde surgirá o papel sensibilizado ou a placa fotográfica, encontramos aqui lápis, pena e papel. Esta câmara escura de secretária ocupa, assim, um lugar charneira na história da imagem: é simultaneamente instrumento científico, auxiliar artístico e antepassado directo da câmara fotográfica, testemunhando o momento em que o olhar moderno aprende a ver através de máquinas.




quinta-feira, maio 28

O Passeio Público em ESTEREOSCOPIA

Remate norte do Passeio Público lisboeta, com escadaria de acesso à Praça da Alegria de Baixo. (vista estereoscópica sem indicação de autor, c. 1870). A data habitualmente dada como nascimento da Avenida da Liberdade - 1879 - está errada, e refere-se à altura em que foi apresentado o projecto. Deve preferir-se 1886, pois só nessa altura foi a artéria oficialmente inaugurada. Os portões do Passeio Público ainda estavam de pé na altura em que foi construído o padrão dos Restauradores.

Esta vista estereoscópica montada em cartão simples e sem referências é mais antiga que a maioria das estereoscopias portuguesas correntes que hoje aparecem em leilões ou sítios de vendas. Provavelmente, é da década de 1860 ou de 1870. Está mais próxima das primeiras experiências lisboetas ligadas à circulação inicial da fotografia estereoscópica do que das grandes séries comerciais posteriores. Muitas das primeiras fotografias deste tipo sobreviveram sem marca porque ainda não havia uma identidade comercial estabilizada em Portugal para este mercado.






quarta-feira, maio 27

CASTRO DO CANTO, FOTÓGRAFO ANGRENSE

José Sebastião de Castro do Canto nasceu em Angra do Heroísmo a 20 de Janeiro de 1850 e pertenceu aos meios cultos e elegantes da sociedade terceirense do final do século XIX e início do XX. Funcionário público, chegou a ser secretário da Câmara Municipal de Angra, mas destacou-se principalmente como floricultor, aguarelista e ‘photographo amador’. Ligado ao Partido Progressista, foi eleito procurador à Junta Geral em 1905, exercendo funções de vice-presidente da comissão distrital. 

Apesar de nunca ter tido um grande atelier comercial conhecido, tornou-se figura muito respeitada nos círculos artísticos locais. Na fotografia, Castro do Canto foi sobretudo “amador de elite”, e muito elogiado pela crítica especializada. A revista ‘Echo Photographico’ dedicou-lhe uma página na sua Galeria de Amadores Contemporâneos, descrevendo-o como “photographo amador hors-ligne” e afirmando que as suas obras eram “admiradas e disputadas”. O nome dele ficou associado aos postais ilustrados editados pela Loja do Buraco (em Angra do Heroísmo), onde surge frequentemente em legendas estilo ‘Cliché do Sr. Castro do Canto’. 

Em 1910, Castro do Canto apresentou na montra da loja as primeiras experiências de ‘photographia a cores’ (autocrómio) conhecidas na Terceira, facto raro e muito precoce no contexto português. As suas imagens — paisagens do Monte Brasil, vistas urbanas ou festas do Espírito Santo — revelam um olhar simultaneamente documental e artístico, tornando-o uma das figuras mais interessantes da fotografia açoriana do século XX.






segunda-feira, maio 25

O ESCALABITANO CAFÉ SCALABIS

Na Rua Capelo & Ivens, em Santarém, no edifício onde mais tarde funcionaria o pronto-a-vestir Ornatus, existiu um dos estabelecimentos mais modernos e emblemáticos da cidade: o Café Estrela Scalabis. 

O empresário e jornalista Alfredo da Silva Leitão, correspondente d’’O Século’ em Santarém, inaugurou-o em 1922, como café, casa de chá e local de tertúlia elegante. O nome evoca a Santarém/Scalabis romana, anterior à inspiração cristã de Santa Iria.

A 12 de Março de 1939, Alfredo da Silva Leitão promoveu um ‘restauro’ modernista do espaço, cuja nova inauguração foi amplamente fotografada pelo ‘Século’. O projecto arquitectónico, assinado por Manuel Figueiredo, distinguia-se pela sua fachada de grandes superfícies envidraçadas, pelos interiores mais amplos e por uma grande escadaria de acesso ao salão de jogos.

A remodelação de 1939 transformou o [Estrela] Scalabis num verdadeiro símbolo da modernidade urbana em Santarém, com linhas arquitectónicas e mobiliário comparados aos do então renovado Teatro Rosa Damasceno. Os bilhares ganharam fama nacional, sendo frequentados por praticantes portugueses e estrangeiros da modalidade. 

Em 1942, o café foi vendido à Sociedade Comercial União Ribatejana, que organizou um concurso para escolher uma nova designação. O nome vencedor foi Café Portugal, adoptado após nova remodelação realizada em 1943 pelo arquitecto Filipe Nobre de Figueiredo. Permaneceu como um dos grandes pontos de encontro da cidade, encerrando finalmente nos anos 70, quando o espaço deu lugar à loja Ornatus. Observando bem, ainda lá encontramos vestígios da linguagem modernista de 1939.


Inauguração do Café Scalabis, em 1939




domingo, maio 24

Os Postais de António Novaes

António Novaes (1855–1940) foi uma das figuras fundamentais da fotografia portuguesa entre o final do século XIX e os primeiros anos do século XX, embora hoje permaneça relativamente esquecido face à celebridade posterior dos seus familiares Horácio e Mário Novaes. 

Filho de José Marcelino Henriques Novaes e de Fábia Emília de Novaes, era o mais velho de quatro irmãos ligados às artes. Já exercia a profissão de fotógrafo quando casou, em Lisboa, a 5 de Outubro de 1874, com apenas 19 anos. Nessa época morava na Rua do Arco do Marquês do Alegrete, n.º 92 (freguesia do Socorro). Em 1879, vivia na Rua Nova da Palma, n.º 69 (onde nasceu a filha Alice Novaes, baptizada no ano seguinte na Igreja do Socorro). No assento de nascimento da filha, António Novaes surge descrito como “retratista”. Em 1882 está registado como fotógrafo na Rua dos Canos, n.º 58, e em 1896 tinha atelier na Rua do Arco da Graça, n.º 30. Esta última morada está ligada à casa Photographia Contemporânea, oficina associada ao jornal ‘O Contemporâneo’. 

Em 1904, Novaes trabalhava na Calçada do Duque, n.º 25, morada de um dos grandes centros fotográficos da Lisboa da época e onde também exerceram actividade os irmãos mais novos (Eduardo e Júlio).

A carreira de António Novaes atingiu o auge entre 1902 e 1912. Afirmou-se então como fotojornalista e como retratista da corte, recebendo o título de Fotógrafo da Casa Real Portuguesa. Nesse período, colaborou na ‘Illustração Portugueza’, no ‘Occidente’, nos ‘Serões’, na ‘Semana Ilustrada’ e no ‘Tiro & Sport’. Para todas estas publicações fotografou as visitas régias, os casamentos elegantes, as corridas de automóveis, os desportos então emergentes e as cerimónias oficiais. São de sua autoria algumas das imagens mais emblemáticas da Lisboa monárquica do início do século XX. 

Os postais fotográficos das visitas do Presidente Loubet, de Eduardo VII, Afonso XIII, da rainha Alexandra ou dos duques da Cornualha trazem a sua assinatura no canto inferior direito e são muito procurados por coleccionadores. Em 1901, José Malhoa pintou e ofereceu-lhe um célebre retrato. 

Documentos camarários de 1903 e 1913 referem Novaes como ‘pintor retratista’, morando primeiro na Rua José Estêvão, n.º 129, e depois na Rua de Arroios, n.º 34. Isso sugere que António poderá ter conciliado fotografia e pintura nos últimos anos de actividade. Provavelmente já como fotógrafo de estúdio, especializado nos então muito divulgados ‘retratos a carvão’.




Visita a Lisboa 
do presidente francês 
Émile Loubet (1905)

 António Novaes 
retratado por José Malhoa (1901)



sexta-feira, maio 22

FRANCESCO ROCCHINI

Francesco Rocchini (1821–1893)  foi um dos mais fotógrafos activos na Lisboa no século XIX, desempenhando um papel central na consolidação da fotografia enquanto prática profissional, artística e comercial. Nascido em 1821, chegou a Portugal em 1847, num momento ainda precoce da história da fotografia, quando os processos e os modelos de estúdio se encontravam em plena definição. Fascinado pela possibilidade de fotografar salões e outros interiores, aprenderá a técnica de daguerreótipo com P. K. Corentin, especialista francês de passagem pela capital portuguesa.

A partir de 1853, Rocchini exerce como fotógrafo profissional, vindo a estabelecer um atelier de grande prestígio no Bairro Alto, com frente para a Rua de São Pedro de Alcântara e entrada pela Travessa da Água Flor. O seu estúdio distinguia-se pela oferta de retratos em todas as dimensões, desde miniaturas até ao tamanho natural, bem como pela execução de trabalhos em exteriores por encomenda,  sinal de uma actividade sólida e bem estruturada. 

O reconhecimento da sua obra ultrapassou o contexto português. Foi premiado internacionalmente, nomeadamente na Exposição Universal de Viena (1873), na Exposição Internacional de Filadélfia (1876), na Exposição Universal de Paris (1878),, na Exposição Portuguesa do Rio de Janeiro (1879) e na Exposição Internacional de Fotografia do Porto (1886), onde obteve medalha de ouro. Estes prémios colocam Rocchini ao nível dos grandes ateliers europeus do seu tempo e confirmam a importância do seu estúdio lisboeta nos circuitos internacionais da fotografia.

Morreu em 1893, deixando produção vasta, hoje maioritariamente dispersa por álbuns particulares e colecções pouco estudadas. A sua relativa obscuridade actual contrasta com o prestígio que teve em vida. Francesco Rocchini deve ser reconhecido como uma figura maior da fotografia portuguesa do século XIX e como um dos protagonistas da afirmação da fotografia em Lisboa enquanto arte e profissão.

Colaborador de inúmeras publicações, Rocchini poderá ter criado, sem o saber, algumas imagens depois utilizadas sobre postal ilustrado. Após a sua morte, em 1895, o estúdio continuará activo. Tal como acontece no caso de Cifka, muitos dos negativos e provas que realizou irão engrossar vários acervos e recolhas temáticas.



Programa de visita guiada ao antigo

atelier Rocchini, por Marina Tavares Dias 

e José Luís Madeira (2010)




Albumina original a partir 
de negativo de vidro de 
Francisco/Francesco Rocchini  
e posterior postal ilustrado em fototipia





Catálogo, cartão fotográfico e publicidade
 ao 'atelier' de Rocchini, 
antes e após a morte do fotógrafo 

quarta-feira, maio 20

O CAFÉ PARAÍSO DE TOMAR

O histórico Café Paraíso, na Corredoura de Tomar, celebra hoje mais um aniversário. Fundado em 1911, foi desde o início um dos principais pontos de encontro tomarenses, frequentado por comerciantes, estudantes, militares, viajantes e famílias que ali iam conversar, ler jornais ou simplesmente ver o movimento da rua.

A decoração é de 1946 e foi conduzida pelo arquitecto Francisco Granja. São dessa época muitos dos elementos que sobreviveram até aos nossos dias: espelhos venezianos, colunas, ventoinhas de tecto, vitrines, mobiliário e a caixa registadora antiga. O Paraíso conserva a atmosfera dos clássicos cafés portugueses, misturando ecos de art-déco tardio com o espírito dos antigos centros de convívio. Mais de um século depois da abertura, continua a ser dos espaços mais emblemáticos de Tomar e um dos cafés históricos mais bem preservados do país.


Café Paraíso em 1911

  Esplanada do Paraíso na década de 40

ILDEFONSO PUIDGENGOLAS: O HERÓI DE BADAJOZ REFUGIADO EM PORTUGAL

Agosto de 1936. Q uando as tropas franquistas do coronel Juan Yagüe cercaram Badajoz, o homem responsável pela defesa da cidade era um coron...