sábado, agosto 15

AS MINHAS BAILARINAS

 







Em 1968, quis tirar um retrato com as minhas bailarinas. Não com uma boneca, um urso ou qualquer outro brinquedo suficientemente grande para aparecer numa fotografia, mas com duas figurinhas minúsculas, uma em cada mão. Segurei-as junto dos ombros, como se fossem jóias, e assim fiquei, muito séria na minha felicidade, na varanda da casa da Avenida Almirante Reis.

Durante quase cinquenta anos não soube quem eram. Lembrava-me apenas de que gostava muito delas. Descobri-as depois de muito pesquisar: eram inglesas, da Herald Models (conjunto H4710, Figures from the Ballet), e tinham sido criadas por uma escultora chamada Kay Fido.

A primeira surpresa foi saber que as bailarinas eram mais antigas que eu. O conjunto, lançado em Maio de 1954, já estava retirado do catálogo desde 1962. Quando me deixei fotografar com elas, já não se fabricavam. Podem ter sido compradas como resto de loja, ou guardadas durante algum tempo antes de chegarem às minhas mãos.

A surpresa maior vem depois: Kay Fido não era  um nome obscuro escondido nos arquivos da fábrica de brinquedos. Era Kay Fido Hunt, nascida em 1933 e falecida em 2001, artista britânica cuja obra pertence hoje à Tate Gallery. Quando modelou as minhas bailarinas, tinha apenas vinte anos.

Pouco se sabe desses primeiros anos. Ignora-se onde estudou e quando entrou na Herald. Os estudos sobre brinquedos britânicos colocam-na ao lado de Roy Selwyn-Smith, Norman Sillman e Charles Biggs, no pequeno grupo de artistas que modelou figuras para a Herald durante a idade de ouro dos brinquedos ingleses de plástico.

Em 1954, os catálogos eram dominados por soldados, guardas, índios, cowboys, cavaleiros e animais de quinta. As Figures from the Ballet, expressamente destinadas a alargar o mercado à «metade feminina» do público infantil, eram uma excepção. Pela primeira vez, o pequeno palco de uma caixa de brinquedos não mostrava uma batalha ou uma parada militar, mas um bailado.

A caixa continha quatro figuras: um bailarino, uma prima ballerina e duas bailarinas do corpo de baile. Havia diferentes pinturas — azul, vermelho, verde, branco, amarelo e aplicações douradas — e pelo menos duas caixas-palco, uma branca com desenhos florais e outra rosa com cortinas impressas. As figuras apresentavam-se sobre um cartão azul-real, sob a legenda Figures from the Ballet. Nas primeiras caixas lia-se ainda: «Herald Models — A Zang Product — Made in England».

Tudo extraordinariamente pequeno. As figuras, moldadas em polietileno flexível à escala de 1:32, mediam cerca de 54 milímetros. Num corpo de cinco centímetros, Kay Fido conseguiu representar anatomia, roupa, movimento, equilíbrio e expressão. A cabeça mede quatro ou cinco milímetros; as mãos, talvez dois. Mesmo assim, distinguem-se as palmas e os polegares, as pregas das mangas, os laços das sapatilhas e os ornamentos dos corpetes.

Uma das bailarinas apoia todo o corpo sobre uma única ponta, enquanto levanta a outra perna quase horizontalmente. Os braços seguem direcções diferentes, o tronco roda e a cabeça prolonga o movimento. O bailarino usa calças justas, mangas tufadas e um colete ornamentado; parece avançar sobre um pé, com os braços abertos, surpreendido a meio de um passo. Nas bailarinas de saia comprida há diferentes camadas de tecido, pregas, pequenos ramos pintados e sapatilhas que mal chegam a ver-se sob a bainha.

Não bastava modelar figuras belas. Tinham de poder sair de um molde industrial, conservar os membros muito finos, resistir às mãos das crianças e manter-se de pé sobre bases minúsculas. A flexibilidade do polietileno permitia uma delicadeza impossível nas antigas figuras de chumbo, mas obrigava a calcular a espessura dos braços e das pernas, a contracção do material e todos os pontos frágeis. O que hoje vemos ampliado numa fotografia foi executado para ser observado a olho nu e segurado entre dois dedos.

Sob a base aparece o logótipo da Herald — um pequeno arauto tocando trombeta — entre as palavras MADE IN ENGLAND. Até essa marca, com poucos milímetros, continua perfeitamente legível.

Kay Fido não permaneceu no mundo dos brinquedos. Foi uma pioneira feminista. Nos anos 70, já com o nome de Kay Fido Hunt ou simplesmente Kay Hunt, integrou o Women’s Workshop da Artists’ Union, em Londres. Em 1973, juntou-se a Margaret Harrison e Mary Kelly para estudar as condições de trabalho das mulheres na fábrica da Metal Box Company, em Bermondsey.

Durante mais de dois anos, as três artistas trabalharam com cerca de duzentas operárias. Fotografaram individualmente cento e cinquenta, entrevistaram mais de quarenta e recolheram salários, horários, cartões de ponto, classificações profissionais, depoimentos sonoros e imagens dos diferentes trabalhos. Queriam verificar o que sucedia durante a aplicação do Equal Pay Act de 1970, que deveria eliminar a discriminação salarial até 1975.

O resultado foi Women & Work: A Document on the Division of Labour in Industry, apresentado na South London Art Gallery em Maio de 1975. A exposição reunia fotografias, filmes, gravações, tabelas, diagramas, documentos da fábrica e retratos das operárias. Demonstrava que a igualdade formal dos salários não eliminara a desigualdade: as mulheres continuavam concentradas nas tarefas classificadas como não especializadas, ocupavam os escalões inferiores e recebiam menos. Em 1975, representavam 44 por cento dos trabalhadores da fábrica e 95 por cento delas ganhavam menos de 1500 libras anuais.

A obra, considerada hoje um marco da arte conceptual feminista britânica, pertence à Tate. É curioso pensar que a mesma mulher que, aos vinte anos, modelara minuciosamente bailarinas de cinco centímetros dedicaria depois a sua arte a tornar visível o trabalho igualmente minucioso e quase sempre ignorado das mulheres.

A fábrica onde começou a sua carreira pertencera a Myer Zang, refugiado judeu que se estabeleceu na Grã-Bretanha e se especializou nas novas técnicas de moldagem de plástico. A Herald Miniatures funcionava em 184–186 King’s Cross Road, Londres, e vendia os seus produtos sob a marca Herald Models. A W. Britain, célebre pelos soldados de chumbo, percebeu que o futuro dos brinquedos estava no plástico e começou a distribuir as figuras Herald em 1954. Adquiriu uma participação dominante na empresa em 1955 e integrou-a definitivamente na Britains em 1959.

Foi assim que os brinquedos inicialmente marcados «A Zang Product» passaram a ser conhecidos como Britains–Herald. A produção continuou durante os anos 60 e parte dos 70, embora muitos modelos mais delicados fossem desaparecendo. As bailarinas H4710, lançadas em 1954, foram retiradas em 1962. Em 1978, a Britains recuperou brevemente o tema numa reedição Super Deetail, já diferente das figuras originais.

As minhas, de fatos verdes, pertenciam à primeira geração, modelada pela jovem Kay Fido. Não sei onde foram compradas nem o que lhes aconteceu. Sobreviveu apenas a fotografia de 1968: a criança na varanda da Avenida Almirante Reis, de vestido escuro e laço ao pescoço, segurando junto dos ombros duas obras minúsculas de uma artista de quem ainda ninguém lhe falara.

Hoje percebo por que razão gostava tanto delas. Não eram apenas bonequinhos. Eram pequenas esculturas perfeitas, bailarinas – como eu, na altura, também era. Feitas por uma rapariga inglesa de vinte anos. Capazes de conservar num pedaço de plástico o equilíbrio impossível de um corpo em movimento.


Marina Tavares Dias












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