O pequeno panfleto foi-me dado por um colega desses anos 60, também aluno do colégio e participante na récita. As suas recordações pessoais mostraram-me um Jorge anterior aos discos: sabia todas as canções de Bob Dylan e sentava-se ao piano do colégio para tocar. Ninguém o contrariava. Num estabelecimento dirigido com austeridade pelo reitor Santana Maia, essa liberdade chamou a atenção dos outros alunos, que a relacionavam com o facto de já se saber que Jorge tinha formação musical.
Os colegas desse tempo recordavam as fugas ocasionais de Jorge e a maneira como estudava, deixando a preparação para a véspera e prolongando vigílias pela noite dentro. Pequenos episódios da vida escolar que tive oportunidade de confirmar com ele em 1980, e que ajudaram a ver o rapaz por detrás do nome impresso neste programa. Em Janeiro de 1967, Jorge Palma já tocava com uma banda, procurava o piano sempre que podia e tinha colegas que reparavam nele. É esse Jorge, conhecido de perto, que o seu ex-colega ainda recordava e recorda.
Fast-forward 13 anos. Em 1980, ainda ninguém levava o Jorge Palma muito a sério. Era essa a impressão que eu tinha sempre que tentava falar dele, sempre que lhe tocava os discos. «Estás a ouvir um gajo que canta ‘não é o fim da picada’?». Ele já tinha gravado, compunha, cantava, tocava piano e guitarra, tinha estado em festivais ao vivo, mas continuava a ser visto como aquela figura meio errante, o rapaz que andava por aí com as canções no bolso. O facto de tocar no metro não ajudava a convencer quem decidia o que merecesse destaque num jornal diário.
Conheci-o através do Luís. Aos 18 anos, eu queria entrevistá-lo porque me parecia evidente que havia ali histórias para contar. O Jorge disse-me então que nunca lhe tinham feito uma entrevista tão longa. Foi publicada em Janeiro de 1980, no diário matutino Portugal Hoje. Conseguir que aquela conversa saísse não foi simples. Pessoalmente, ainda procurava o meu lugar na Imprensa. Ele ainda procurava quem o escutasse sem condescendência. Nenhum de nós tinha «taco».
Havia, é claro, quem já lhe conhecesse canções e gostasse delas. Quando digo que ninguém o levava a sério, falo do ambiente entre as elites bem-pensantes: a facilidade com que se desvalorizava alguém que não correspondesse à ideia de artista respeitável. O Jorge trazia para as entrevistas a mesma franqueza com que tocava na rua. Falou imenso das cantigas nos corredores do metro, das viagens tantas vezes quase forçadas, do dinheiro que faltava, do que lhe apetecia fazer.
Era livre. Ainda? Sempre? - Não queria saber. Talvez essa liberdade parecesse excessiva aos mais velhos. Nunca achei.
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