domingo, outubro 4

1966, NORTE DE MOÇAMBIQUE

A fotografia de 1966 mostra militares portugueses junto do monumento de pedra que, no extremo norte de Moçambique, perpetuava a homenagem aos soldados ali mortos durante a Primeira Grande Guerra. Perto do rio Rovuma e da fronteira com a Tanzânia, este marco encimado por uma cruz e parcialmente coberto por líquenes era parte da antiga presença militar portuguesa naquela região remota de Cabo Delgado. 

À volta dele, os soldados posam de forma descontraída, empoleirados no pedestal, segurando armas automáticas, em composição quase improvisada de fotografia de campanha. O mais curioso é o ambiente aparentemente calmo. Não há combate, tensão visível ou dramatização heróica. A imagem transmite a estranha normalidade dos primeiros anos da Guerra Colonial no norte de Moçambique, quando muitas zonas do Rovuma viviam ainda numa espécie de coexistência ambígua entre guerrilha, presença militar portuguesa e populações locais habituadas a circular dos dois lados da fronteira.

Segundo testemunho do soldado que guardou esta imagem, a região parecia muitas vezes parada numa “drôle de guerre" suspensa e quase irreal. As populações locais abasteciam tanto portugueses como guerrilheiros e, do outro lado do rio, os chamados “turras” podiam ser vistos a acenar ou a observar as patrulhas portuguesas à distância. A fronteira era mais humana que política: famílias, línguas e redes comerciais atravessavam o rio muito antes das divisões coloniais entre portugueses, alemães e britânicos. 

Vista hoje, esta fotografia ganha uma dimensão histórica impressionante. Aquele norte de Moçambique aparentemente imóvel viria depois a conhecer décadas sucessivas de violência: guerra colonial, independência, guerra civil e, já no século XXI, a invasão islamista de Cabo Delgado. No século XXI, o Rovuma é uma das fronteiras mais instáveis da África Oriental.








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