quinta-feira, setembro 10

RODIN E AS TORRES GÉMEAS

 


Quando vi a fotografia, em 2002, o que primeiro me impressionou não foi propriamente ver ‘um Rodin’ aos bocados. Foi perceber que nem sequer se sabia que a escultura  tinha sido destruída no 11 de Setembro. Durante meses, lera e ouvira tanto sobre o atentado e a posterior remoção dos escombros das Torres Gémeas, e nem sequer me ocorrera que, lá em cima, juntamente com escritórios, computadores, arquivos e milhares de vidas, estavam também colecções de arte. A tragédia fora de tal dimensão que a perda de obras de Auguste Rodin se tornou quase irrelevante. 


A escultura da fotografia foi concebida para coroar a monumental ‘Porte de l'Enfer’. As suas três figuras são, na realidade, uma repetição da mesma imagem masculina, disposta três vezes em torno de ponto comum. Rodin concebeu o grupo antes de 1886. O modelo ficou em gesso. As fundições em bronze vieram depois. O próprio Musée Rodin conserva a fundição em areia (de Alexis Rudier), realizada em 1928. Tem 97 por 91,3 por 54,3 centímetros e 155 quilos. 


O exemplar que estava em Nova Iorque teria sido fundido por volta de 1930, e pertencia à colecção da Cantor Fitzgerald. Não era bronze saído directamente das mãos de Rodin (morto em 1917), mas uma fundição primitiva da sua maquete a isso já destinada.


Por detrás da história está  B. Gerald Cantor (1916-1996), fundador da Cantor Fitzgerald e, provavelmente, o maior coleccionador mundial de obras de Rodin. Começara a comprar na década de 40, acabando por reunir a maior colecção particular do escultor. Em 1981 abriu, no 105.º andar da Torre Norte do World Trade Center, o museu a que deu o nome de B. G. Cantor Sculpture Center. Cerca de 370 metros quadrados, onde expunha mais de cem esculturas, desenhos, gravuras, fotografias e documentação sobre Rodin. O ‘Guinness Book of Records’ chamou-lhe ‘o museu mais alto do mundo’. Acabaria por fechar em 1986, quando Cantor decidiu dispersar parte da colecção em doações a grandes museus. 


Mas o Museu Rodin não desapareceu inteiramente do World Trade Center. A Cantor Fitzgerald continuava a ter, nos seus escritórios, parte dessa importante colecção empresarial. Fotografias anteriores ao atentado mostram, por exemplo, ‘O Pensador' no átrio da sede.


Ali, nos andares 101 a 105 da Torre Norte, estava a empresa instalada na manhã de 11 de Setembro de 2001. Às 8h46, o voo 11 da American Airlines entrou na torre abaixo desses andares. As escadas ficaram cortadas. Todas as pessoas que se encontravam então nos escritórios da Cantor Fitzgerald morreram. Ao todo, a empresa perdeu 658 dos seus 960 empregados de Nova Iorque, a maior perda humana sofrida por uma única organização.


É este número que muda completamente o significado da escultura. Os atentados de 11 de Setembro mataram 2.977 pessoas: 2.753 em Nova Iorque, 184 no Pentágono e 40 a bordo do voo 93, na Pensilvânia. Perante isto, quem iria fazer manchetes com o desaparecimento de obras de Rodin? – Essa constatação, na época em que vi a fotografia da escultura mutilada, pareceu-me avassaladora. 


Depois do colapso das torres, os escombros foram sendo levados para Fresh Kills, um gigantesco antigo aterro em Staten Island. Montaram uma quase inimaginável triagem: restos humanos, objectos pessoais e provas do crime. No meio desse material apareceram aqueles corpos de bronze mutilados. Reconheceram-se restos de ‘As Três Sombras’. O New York State Museum confirma agora que o fragmento recuperado em Fresh Kills, proveniente da colecção Cantor Fitzgerald, foi preservado na sua colecção sobre o World Trade Center.


Na fotografia que vi em 2002 não havia museu, vitrinas ou iluminação estudada. ‘O Rodin’ estava mutilado e no chão: corpo sem cabeça, membros ausentes, bronze rasgado pela violência do impacto. Junto dele, pneus, peças de máquinas, terra e milhares de toneladas de destroços. Apesar de tudo, permanecia nele a assinatura, e bem visível: A. Rodin.


Noutra circunstância, a destruição de uma obra de Rodin com esta importância teria sido notícia internacional. Haveria historiadores de arte a lamentá-la, fotografias do «antes e depois», avaliações, discussões sobre restauro. Ali, era apenas mais uma coisa encontrada entre os restos de uma cidade de luto. Hoje, os fragmentos estão conservados e são mostrados, mas como testemunhos do 11 de Setembro. Continuam a ser ‘As Três Sombras’ concebidas por Rodin no século XIX. Mas, perante as 658 pessoas que morreram só  naquela empresa, até a obra de um dos maiores escultores de sempre foi ignorada pela imprensa. Ficou ali caída, no chão de Fresh Kills, entre pneus velhos, bocados de ferro, cimento e pó. Era considerada uma perda pequena.



Marina Tavares Dias







Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.

O NIASSA E A GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Após a queda de Badajoz, a 14 de Agosto de 1936, milhares de republicanos espanhóis procuraram refúgio em Portugal, sobretudo através da fro...