terça-feira, setembro 8

A TORTA DE FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO

Durante muitos anos, a minha mãe fez uma torta salgada a que chamava, simplesmente, «torta de Figueira de Castelo Rodrigo». Era uma das delícias da nossa mesa: massa leve e esponjosa, enrolada ainda quente, recheada com fiambre cortado em pedacinhos e envolvida num molho béchamel macio e abundante. O mesmo molho cobria depois a torta, formando sobre ela uma camada branca e cremosa. Cortada às fatias, mostrava a espiral perfeita da massa e do recheio. Era bonita, reconfortante e tão boa que nunca pensei perguntar-lhe a receita. As coisas que julgamos eternas são precisamente aquelas que mais facilmente deixamos por registar.

A minha mãe aprendera a fazê-la numa pensão, durante uma viagem a Figueira de Castelo Rodrigo, no fim dos anos 50. O meu pai era engenheiro agrónomo do Ministério da Agricultura e estava a estudar a qualidade dos solos. O lugar era Barca de Alva, onde, em 1957, estão documentados trabalhos agronómicos em olivais. Por essa mesma época, escreveu ele a tese sobre a erosão nas terras locais.

Naquela Barca de Alva anterior às barragens, metida entre encostas ásperas, junto do Douro e da fronteira espanhola, a estação ainda recebia os comboios da linha internacional. Os técnicos recolhiam amostras das terras, tomavam notas e iam mandando relatórios. Ao fim do dia regressavam à pensão. Ali encontraram uma cozinheira suficientemente generosa para ensinar as suas receitas.

Era uma pequena pensão no Largo das Faias, perto da estação e do cais, talvez antecessora daquela que viria a ser conhecida como Pensão Bago d’Ouro. Não sei se a torta era especialidade da cozinheira ou uma receita aprendida noutra casa. A técnica vem da cozinha francesa: parente doméstica das roulades de soufflé, adaptada em Portugal à forma familiar das nossas tortas. Aqui, a origem não era Paris nem qualquer livro de culinária. Era Figueira de Castelo Rodrigo, porque ali se servia e ensinava a receita.

O fiambre era cortado muito miudinho. A massa, feita com ovos e claras em castelo, tinha de ficar suficientemente fofa para se deixar enrolar sem quebrar. Depois vinha o recheio, o gesto cuidadoso de formar a torta e, finalmente, a cobertura generosa de molho branco. Talvez ainda voltasse ao forno por alguns minutos, apenas o bastante para chegar à mesa quente, com o béchamel a escorrer lentamente sobre cada fatia.

Da pensão ou da cozinheira não guardo nenhum papel. Ficou a torta, cuja receita manuscrita me foi oferecida quando mudei de casa. Durante décadas, aquele prato trouxe à nossa mesa uma viagem de que eu não tinha memória, com a paisagem dos solos estudados e os segredos dessa mulher de Barca de Alva 

As receitas familiares são parcelas menores de cada biografia. Mas guardam lugares, encontros e pessoas que as gerações seguintes já não conheceram. Esta conservou-me o essencial: o seu sabor.


Marina Tavares Dias






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