domingo, outubro 11

TULE: UM REINO DE MEMÓRIAS

 O meu avô tinha a história do rei de Tule num livro ilustrado. Não consigo identificar a edição. Era muito pequena. Lembro-me do que salientava: a importância dos objectos que guardam memórias de que as outras pessoas nada sabem.

Durante muitos anos, julguei que o rei de Tule pertencia às antigas lendas recolhidas por Perrault ou pelos irmãos Grimm. Havia um rei, uma amada morta, uma taça de ouro e um castelo sobre o mar. Parecia história existente desde sempre. Muito mais tarde, descobri na Biblioteca Nacional um conto chamado «A Taça do Rei de Tule», de Fialho de Almeida, (incluída no livro O País das Uvas). «O rei de Tule era velho, e sobre velho, enfermiço e triste.» Aproximando-se a morte, repartia terras e riquezas pelos filhos. Guardava, porém, a taça oferecida pela mulher amada. Depois de beber pela última vez, lançava-a ao mar. Fialho explica o gesto: «por que ninguém mais, bebendo por ela, viesse a conhecer os segredos daquele amor».

Apesar de pequena, detinha-me no valor daquela lembrança. Quem recebesse a taça poderia apreciar o ouro e o trabalho dos relevos. Nada saberia, porém, do que ela significava para o rei. Há objectos cuja história desaparece quando morre a última pessoa capaz de a contar.

Anthero de Quental deu à narrativa o começo familiar dos contos: «Era uma vez um bom rei / Em Thule — essa ilha distante». Na sua versão, datada de 1871, o soberano da terra sonhada abandona, à beira da morte, palácios, vilas e cidades. Tudo deixa sem saudades. Custa-lhe separar-se do copo de ouro. Reúne os cavaleiros para um último festim, bebe e atira a taça às ondas. Fim das memórias com o fim da sua vida.

Anthero traduzia Goethe. Composta em 1774 e publicada pela primeira vez em 1782, a balada Der König in Thule integra o Fausto, onde é cantada por Margarida. Goethe escreve-a ao modo das canções tradicionais. Este conto, adaptado em numerosas versões, tornou-se tema musical e história contada às crianças. Thule, porém, é um reino muito mais antigo. As primeiras notícias dessa terra sonhada são atribuídas a Píteas de Massália, o navegador grego que explorou o norte da Europa no século IV antes de Cristo. O livro original perdeu-se. Restam notícias transmitidas por outros autores, entre eles Estrabão, que situa a Thule de Píteas «a seis dias de navegação para norte da Britânia, perto do mar gelado».

Imagina-se bem a terra irreal, de noites muito curtas e populações sem frio; rodeada de um mar estranho e denso, difícil de atravessar. Afigura-se-me que possa descrever a Islândia e a Noruega. Mas é, sobretudo, local de mistério. Goethe encontrou no nome de Thule a distância temporal necessária a esse mistério. Quando o meu avô contava a história, compreendi que a localização geográfica era «o menos». A vida confirma a sua lição: o que importa é aquilo que a memória deixa connosco.





Pierre Jean Van der Ouderaa
De Koning van Thule

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