Há fotografias que documentam um acontecimento. Outras tornam-se o próprio acontecimento. Esta pertence a esse reduzido grupo. Tirada em Manacor, a 4 de Setembro de 1936, mostra cinco mulheres republicanas capturadas pelas tropas franquistas após o fracasso da expedição comandada por Alberto Bayo. Horas depois seriam fuziladas junto ao cemitério de Son Coletes.
Durante muito tempo permaneceram praticamente sem nome. Hoje, graças às investigações de historiadores e familiares, foi possível identificar quatro delas: Teresa Bellera Cemeli, Mercè Buixadé Adrover, Daria Buixadé Adrover e Maria García Sanchís. A identidade da quinta mulher continua discutida, sendo actualmente considerada mais provável a hipótese de se tratar de Josefina Garcia Prats (a questão permance em aberto).
A fotografia foi tirada no pátio da antiga escola de Manacor, provavelmente por um elemento das tropas franquistas. As cinco mulheres, de macacão azul, continuam a usar braçadeiras da Cruz Vermelha, pois a maioria desempenhava funções sanitárias na expedição republicana. Atrás delas encontram-se dois milicianos igualmente capturados, que partilhariam o mesmo destino.
A força desta imagem reside na absoluta ausência de dramatização. Não há violência visível, armas apontadas ou gestos de desespero. Apenas o silêncio. Teresa Bellera, de cabelo claro, não encara directamente o fotógrafo. Maria García Sanchís, a mais velha do grupo, cruza os braços sobre o peito numa atitude quase protectora. As restantes permanecem imóveis, conscientes de que o desfecho dificilmente seria outro.
O autor da fotografia continua desconhecido, mas esta imagem produzida pelos vencedores transformou-se, décadas mais tarde, no principal testemunho da identidade das vítimas. Parece prolongar as últimas páginas do diário escrito por uma das milicianas da expedição. Nele se fala de camaradagem, da esperança de conquistar Maiorca e da dureza da campanha. Subitamente, a narrativa interrompe-se. Já não há palavras sobre a retirada, a captura, a tortura ou o fuzilamento. O diário termina onde começa a fotografia.
Vista hoje, ganha dimensão ainda mais comovente. Pode ser comparada com as imagens realizadas por Gerda Taro poucas semanas antes, em Barcelona. Nessas fotografias, as mesmas mulheres sorriem, treinam, posam com espingardas ou caminham confiantes rumo ao embarque para Maiorca. Aqui, restam cinco semblantes exaustos. Estão desarmadas e cercadas pelos captores.
Seriam torturadas, executadas e enterradas numa vala comum. Durante décadas permaneceram esquecidas. O retrato colectivo tornou-se um dos documentos mais pungentes da Guerra Civil de Espanha. Lembra não apenas a brutalidade da repressão, mas também o rosto humano dessa geração de mulheres que acreditou ser possível defender a República eleita. E que pagou essa esperança com a própria vida.
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